Embora seja criticado por não ser um técnico com repertório tático profundo, as passagens anteriores de Renato Portaluppi pelo Grêmio mostram o contrário. Em 2010, 2013 e 2016, o treinador se adaptou às características do grupo, montou diferentes formas de jogar e cumpriu os objetivos estabelecidos.

A saída do Flamengo em novembro do ano passado escancarou comentários sobre o comportamento de Renato, o desgaste diário e a qualidade dos treinos. A trajetória na Gávea, que contou com um início avassalador, durou cerca de quatro meses e terminou após a perda do título da Libertadores para o Palmeiras.

O “Renatismo”, por outro lado, sempre deu bons resultados em Porto Alegre. A aposta no losango tirou o Tricolor do Z-4 e levou à Libertadores. O esquema com uma trinca de zagueiros e volantes alçou o time ao vice-campeonato brasileiro. Com o status de “melhor futebol do Brasil”, recolocou o clube na rota dos títulos.

Renato Portaluppi em treino do Grêmio — Foto: João Victor Teixeira

Renato Portaluppi em treino do Grêmio — Foto: João Victor Teixeira

O maior ídolo da história gremista voltou depois de exatos 504 dias com a missão de devolver o Tricolor à elite. A escalação e os aspectos táticos ainda são dúvidas para o duelo contra o Vasco. A definição da equipe ocorre com portões fechados.

Relembre como Renato montou o Grêmio nas passagens anteriores:

Losango e aposta no maestro

Renato foi contratado em agosto de 2010 para substituir Silas, que havia conquistado o título gaúcho, mas iniciado mal o Brasileirão. A equipe estava na zona do rebaixamento. Nos quatro meses de trabalho, mudou a cara do Grêmio e levou um time desacreditado à Libertadores, graças a vitória do Independiente-ARG sobre o Goiás na final da Sul-Americana.

A equipe passou por uma transformação. Os meias Leandro e Souza perderam espaço. Com a lesão de Borges, André Lima assumiu a titularidade e funcionou como um bom complemento a Jonas. Outros nomes ganharam chances e seis reforços foram buscados a pedido do treinador: Gabriel, Paulão, Diego Clementino, Vilson, Júnior Viçosa e Gilson.

Renato no comando do Grêmio em 2010 — Foto: Agência Estado

Renato no comando do Grêmio em 2010 — Foto: Agência Estado

Renato recuperou o meia Douglas e alterou o esquema tático para o 4-4-2 em losango. O meia, que estava em baixa, virou protagonista e complementou o tripé com Fábio Rochemback, Adilson e Lúcio, lateral-esquerdo improvisado no setor.

Além do time-base, o lateral-esquerdo Gilson, o volante Fernando e os atacantes Junior Viçosa e Diego Clementino, o talismã do segundo tempo, eram utilizados com frequência. A primeira passagem pelo clube durou 11 meses, até junho de 2011.

– Era o que a equipe estava precisando, o padrão deste losango. Mas isso não quer dizer que eu não tenha um plano B, um plano C, um plano D. É importante ter variações, alternativas, sempre utilizando esse conhecimento. E todas essas alternativas são treinadas – disse em 2010.

Time-base Grêmio 2010 Renato Portaluppi

Time-base Grêmio 2010 Renato Portaluppi

Esquema com três zagueiros

Renato Gaúcho chegou ao Grêmio em julho de 2013 para substituir Vanderlei Luxemburgo. Com o Brasileiro em andamento, assumiu a equipe na sétima posição, com oito pontos, depois de seis rodadas disputadas. Um turno depois, já estava na vice-liderança com aproveitamento de 60% (10V, 4E e 5D).

A inesperada campanha levou o clube ao vice-campeonato, 11 pontos atrás do campeão Cruzeiro. O time encaixou quando Renato, em um clássico Gre-Nal, mudou o esquema para o 3-5-2, com três volantes.

A formação mudava de acordo com a partida. O 3-6-1 e o 4-3-3 também foram utilizados. O volante Adriano, os meias Elano e Zé Roberto e o atacante Vargas foram titulares em alguns jogos daquela campanha.

– O Grêmio tem as mesmas chances dentro do Campeonato Brasileiro do que qualquer outra equipe. Onde esse time pode chegar? Eu não sei, não faço ideia, nem os jogadores sabem. A gente pensa tudo jogo a jogo. Tem que ser assim, eu tenho os pés no chão e não vou me empolgar – disse Renato à época sobre as chances de título.

Grêmio 2013 - três zagueiros e três volantes - Renato

Grêmio 2013 – três zagueiros e três volantes – Renato

Futebol “mais bonito” do Brasil

Roger Machado pediu demissão no vestiário do Moisés Lucarelli minutos depois da derrota para a Ponte Preta por 3 a 0, em 14 de setembro de 2016. Quatro dias depois, Renato foi anunciado para a reta final do Brasileirão e para o duelo contra o Athletico-PR pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

A estrutura da equipe foi mantida, mas mudanças pontuais foram feitas e aperfeiçoaram o “legado de Roger”. O comandante corrigiu a bola aérea defensiva, colocou em prática um jogo mais direto, aumentou a competitividade do grupo e adiantou Luan para a função de falso 9.

Renato Portaluppi em ação pelo Grêmio na última passagem pelo clube — Foto: André Durão

Renato Portaluppi em ação pelo Grêmio na última passagem pelo clube — Foto: André Durão

A equipe permaneceu no 4-2-3-1, com um dupla de zaga – Geromel e Kannemann – prestes a se tornar referência no futebol Sul-Americano, dois volantes alinhados, Douglas livre para criar, Luan mais à frente, Pedro Rocha na válvula de escape pela esquerda, e Ramiro como homem do suporte, o chamado jogador tático. As principais opções para o segundo tempo eram Jaílson, Everton e Bolaños.

– Acho que o trabalho fica, a comissão fixa continua no clube, então um treinador agrega ao outro. A gente procura pensar desta forma. A característica de time e jogadores são os mesmos do trabalho com o Roger, isso continua, o estilo de jogo continua. E o Renato vem e tenta implantar o estilo dele, muda o que acha que pode ser mudado para melhorar, e algumas coisas ficam – comentou Ramiro à época.

Na temporada seguinte, Renato buscou 12 reforços – entre eles Léo Moura, Bruno Cortez, Michel, Cícero, Barrios e Jael – e apostou no garoto Arthur, que se firmou após lesão de Maicon. Com os novos ajustes, o 4-2-3-1 foi encorpado com Cortez, Michel, Fernandinho e Barrios. Rei da América em 2017, Luan passou a ser meia.

Time-base do Grêmio de 2016 - campeão da Copa do Brasil

Time-base do Grêmio de 2016 – campeão da Copa do Brasil

Em 2018, a equipe manteve o alto nível e chegou às semifinais da Libertadores. Uma derrota improvável na Arena para o River Plate acabou com o sonho do tetra. Nos anos seguintes, o Tricolor seguiu competindo e brigando por títulos – venceu todos os estaduais que disputou – mas já sem o status de melhor futebol do Brasil.

Renato saiu “em comum acordo” em abril de 2021, após eliminação para o Independiente Del Valle na fase prévia da Libertadores. A passagem anterior do ídolo gremista durou 4 anos e 7 meses.

O novo time do Grêmio e seus novos ajustes táticos serão conhecidos a partir de domingo, 16h, contra o Vasco, pela 29ª rodada da Série B. Os trabalhos táticos aconteceram com portões fechados no CT Luiz Carvalho.



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