Vargas / Agencia RBS

Grêmio e Caxias entram em campo neste domingo (30), na Arena, em situações opostas. Após o 2 a 0 na Serra, o Tricolor pode até perder por um gol que será tricampeão gaúcho —  um feito que não consegue há 33 anos. 

Para o clube grená conquistar sua segunda taça estadual da história no tempo normal, só vencendo por três de diferença, impondo goleada ao Grêmio em sua casa, o que não tem registro na história do torneio. 

Dentro deste cenário, GZH reconta como foi o tri gremista nos anos 1980. Renato Portaluppi, que era jogador nos títulos de 1985 e 1986, hoje comanda o time em busca da honraria que coube a Felipão em 1987 — ano no qual transferiu-se para o Flamengo. Com ajuda de depoimentos exclusivos enviados por Felipão, relembre bastidores e a conquista do tri gaúcho de 33 anos atrás, conquistado num Gre-Nal vencido por 3 a 2.

A temporada de 1987

Ao longo da história do Campeonato Gaúcho, o Grêmio nunca foi só tri. Quando chegou a três títulos consecutivos, não parou por aí e emendou mais dois, três e até quatro conquistas depois, sendo penta, hexa e heptacampeão estadual. Sendo assim, os tricampeonatos do tricolor foram conquistados em 1958 (terminou penta em 1960), 1964 (terminou hepta em 1968) e, o último, em 1987 (terminou hexa em 1990).

O Grêmio começou o ano do tri com Candinho de técnico. Ele havia assumido ainda em 1986, mas como o Brasileirão só terminava no ano seguinte, ele virou o a temporada no cargo. Sem conseguir uma boa classificação, Candinho saiu e o Grêmio começou o Gauchão com o interino Zeca Rodrigues de técnico. 

Foram 11 rodadas até a chegada de Juan Mujica em março. Mas o uruguaio nunca caiu no gosto dos gremistas. O time não se acertava e menos de três meses depois, com uma sequência de uma vitória em sete jogos, acabou demitido. Caminho aberto para a aposta num iniciante, de 38 anos, que vinha se destacando no interior do Estado — Luiz Felipe Scolari:

— Eu estava no Juventude. Ao terminar o jogo contra o próprio Grêmio, que vencemos por 1 a 0, o seu Verardi (Antônio Carlos, então supervisor de futebol do Grêmio) perguntou-me se eu estaria disposto a ouvir uma proposta, porque o clube não contaria mais com o Mujica.

Assim começava a primeira Era Felipão no Grêmio. Era uma fria noite de terça-feira, 26 de maio de 1987, em Caxias do Sul. Luiz Felipe Scolari tinha apenas cinco anos de experiência como treinador, sempre em clubes menores. Mas naquele Gauchão, com o Juventude, tinha ficado a frente do Grêmio nos dois turnos, e sempre entre os quatro melhores da competição.

A demissão de Mujica ainda demoraria mais duas rodadas, sendo concretizada após um empate no Gre-Nal 285, no Beira-Rio. Caio Júnior marcou para o Grêmio e Amarildo empatou. Felipão tinha 15 jogos pela frente para conquistar o tricampeonato.

— Com a permissão do presidente Sérgio Tomazzoni (Juventude), aceitei o convite do Grêmio, pois seria o primeiro passo que eu poderia com relação a uma carreira mais promissora do que eu já vinha tendo — ressaltou Felipão.

O novo comandante estreou em casa, no dia 3 de junho, vencendo o Inter de Santa Maria por 1 a 0, gol do zagueiro Luís Eduardo. Sem uma atuação convincente, Felipão foi realista no final do jogo como relatou Zero Hora, no dia seguinte a vitória:

— Estrear vencendo é muito bom. Mas temos que falar que o time não está essas maravilhas.

Dali em diante, o time foi se encaixando e as vitórias se sucedendo. Felipão não perdeu mais no Gauchão e a conquista do tri aconteceu um mês e meio depois da estreia.

— Só fui modificar a equipe mais para o final do campeonato, trazendo o Valdo da ponta para o meio. Já tínhamos China e Bonamigo com uma marcação mais forte e o Valdo ficaria livre para criar — relembra o técnico.

A campanha de 15 jogos com nove vitórias e seis empates foi coroada no Gre-Nal da última rodada do hexagonal final. No Olímpico, era o último desafio antes de entrar para a história.

— Esse jogo foi o mais marcante para mim, porque foi meu primeiro título conseguido com o Grêmio — finalizou Felipão.

Gre-Nal sempre foi o jogo do título

A década de 1980 foi recheada de formulismos no Campeonato Gaúcho. Em todo o período, o Gauchão jamais terminou com as chamadas “finais”. Ano após ano, a competição terminava com as últimas rodadas de uma fase decisiva, como um quadrangular, um hexagonal, um octogonal e até um decagonal. O curioso é na conquista do tri gremista em 1985, 1986 e 1987, as taças só puderam ser comemoradas nos últimos jogos que propositalmente eram clássicos. Todos ocorreram no antigo Olímpico.

No primeiro título, o Grêmio venceu o Inter por 2 a 1, gols de Bonamigo e Caio Jr. Tita descontou. O Tricolor chegou no clássico dois pontos atrás do Inter. Precisava vencer para ganhar o turno e o campeonato. Conseguiu. No ano seguinte, na última rodada do quadrangular final, o Grêmio tinha um ponto à frente do Inter. Jogava pelo empate e fez mais: venceu por 1 a 0, gol de Osvaldo.

Números do Tri

Bem diferente de 2020, quando o tri pode ser conquistado depois de 51 jogos (desde a estreia em 2018), na década de 1980, o Grêmio chegou ao terceiro título depois de mais do que o dobro de partidas: 107 em três anos no Gauchão. Lá, foram marcados incríveis 200 gols. Hoje, 96.

1985

Time-base: Mazaropi, Raul, Baidek, Luís Eduardo e Casemiro; China, Osvaldo e Bonamigo; Renato, Caio Jr. e Valdo. Técnico: Rubens Minelli

Jogos: 26 (18 vitórias, 5 empates e 3 derrotas)
Gols: 56 feitos, 17 tomados
Goleadores: Caio Jr (12) e Osvaldo (10)

1986

Time-base: Mazaropi, Raul, Baidek, Luís Eduardo e Casemiro; China, Osvaldo e Bonamigo; Renato, Caio Jr. e Valdo. Técnico: Valdir Espinosa

Jogos: 32 (23 vitórias, 5 empates e 4 derrotas)
Gols: 79 feitos e 26 tomados
Goleadores: Caio Jr. e Osvaldo (13 cada)

1987

Time-base: Mazaropi, Alfinete, Astengo, Luís Eduardo e Casemiro; China, Bonamigo e Cristóvão; Valdo, Lima e Jorge Veras. Técnicos: Zeca Rodrigues, depois Juan Mujica e, por fim, Luiz Felipe Scolari

Jogos: 49 (23 vitórias, 18 empates e 8 derrotas)
Gols: 65 feitos e 33 tomados
Goleadores: Lima (17) e Caio Jr. (8)



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