O jogo do Grêmio contra o CRB, às 20h30, neste sábado, será especial para o principal atacante do clube no século XXI. Diego Souza atingirá a marca de 200 jogos com a camisa tricolor, com a qual alcançou números expressivos nesses últimos três anos. Em entrevista exclusiva ao ge, o centroavante se emocionou ao falar sobre sua relação com o clube e a missão de voltar à Série A.

Somadas a passagem atual e a de 2007, Diego Souza tem 199 jogos pelo Grêmio. Ao entrar em campo neste sábado – e a tendência é que seja titular – completa o número redondo e expressivo. No elenco atual, os únicos que têm mais jogos são os zagueiros Geromel e Kannemann.

Acho que vai ser a primeira vez que consigo essa marca em um clube que passo. Sem dúvida, é muito especial.

— Diego Souza, atacante do Grêmio

Diego Souza, do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixera/ge.globo

Diego Souza, do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixera/ge.globo

Desde que voltou ao Tricolor no início de 2020, o camisa 29 quebra tabus e faz, a cada ano que passa, mais história. A prova disso é que Diego Souza é o artilheiro do clube no século, com 84 gols, artilheiro da Arena, com 53, e nas últimas três temporadas tem sido o principal goleador da equipe.

– Para mim tem sido fantástico. Eu tenho sido feliz na maioria das vezes, ainda mais na nossa casa. Dentro da Arena as coisas conspiram para que a bola me procure e eu sou muito grato por isso. Sem dúvida quero agradecer muito meus colegas por me dar esse respaldo e eu vou procurar fazer o meu papel – celebrou.

Diego apontou justamente a chegada em 2020, mesmo que a temporada anterior tivesse sido de insucessos no Botafogo, como justificativa para essa relação forte. Pode se dizer que a curva na carreira de Diego Souza era descendente, mas no Tricolor se reencontrou. A emoção no tom da sua voz ficou clara na entrevista.

– A gratidão por esse clube é fora do normal, porque eu cheguei aqui em baixa e muitos não acreditavam no meu potencial. O Renato acreditou, me trouxe de volta e de lá para cá as coisas aconteceram de uma maneira maravilhosa para mim. Quando aconteceu a fatalidade de ter caído eu não tinha dúvida que se eu tivesse oportunidade de ficar, independentemente de valor, de qualquer situação, eu estaria aqui, porque foi o clube que me deu a mão no momento que eu precisei. Então terminar aqui para mim é mais do que gratidão – conta emocionado o Diego Souza.

A temporada de 2020, quando retornou ao Tricolor, foi a que mais balançou a rede na sua carreira com 28 gols. Desde então, não fez menos que 20 por temporada. Em 2021, anotou 24 gols e deu seis assistências. Ainda no Gauchão deste ano, Roger garantiu que o centroavante repetiria a dose. E faltam apenas quatro gols para atingir a meta, que é marcar 20 gols.

Confira a entrevista completa:

ge: Qual o tamanho da marca de 200 jogos pelo Grêmio e você imaginava chegar nesse nível?
Diego Souza:
 Eu tive uma passagem maravilhosa aqui em 2007 onde mudou o patamar do meu futebol. Eu era um menino que tinha potencial, fui pra fora, não tive as oportunidades que queria e quando eu volto, venho para o Grêmio, foi de Deus. Consigo ter uma projeção muito legal, fiz gols, mudei de posição e consegui dar uma sequência na carreira. Queria ter permanecido aqui, mas infelizmente os bastidores as coisas acontecem. A prioridade era continuar até porque não tinha porque sair, o ano tinha sido bem legal.

Depois eu rodo, rodo e tive a felicidade, que pra mim foi um presente, de poder voltar em um momento onde a expectativa já não era tão maravilhosa, um momento meio que de desconfiança e consegui ficar três anos. Agora é o terceiro ano seguido dentro dessa instituição de muitas glórias e muitos ídolos e você conseguir fazer uma marca de 200 jogos com bastante gols, pra mim é fantástico. Espero que sempre que estiver vestindo essa camisa, representar da melhor maneira possível.

Duzentos jogos é muita coisa né?
É uma marca precisa, uma marca muito legal. Acho que vai ser a primeira vez que consigo essa marca em um clube que passo e sem dúvida é muito especial.

Como tem sido pra você ser um protagonista da equipe com muitos gols, sendo principal artilheiro?
Para mim tem sido fantástico. Sou um cara que não me apego muito a números. Eu gosto de ganhar, procuro fazer bem o meu papel de centroavante e fazer gols e ajudar que saia os gols. Eu tenho sido feliz na maioria das vezes, ainda mais na nossa casa. Dentro da Arena as coisas conspiram para que a bola me procure e eu sou muito grato por isso. Sem dúvida quero agradecer muito a meus colegas por me dar esse respaldo e eu vou procurar fazer o meu papel.

Percebemos que você fica muito irritado em campo quando parece que as coisas não estão acontecendo. Como lida com tudo isso?
Eu fico irritado, sim, muitas vezes com a não participação, porque a minha vida inteira fui volante, onde participava muito do jogo e depois fui meia, onde participava mais ainda. O que eu brinco com eles é o seguinte, eu não estou preocupado em fazer o gol, eu estou preocupado em participar do jogo. Eu quero tocar na bola, quero fazer tabela, eu quero brigar com zagueiro, eu quero estar um pouco mais ativo dentro da partida. E muitas vezes pela minha posição é muito restrito, né. Ser o cara que quando a bola chega no fundo, eu tenho que estar dentro da área, quando alguém precisa de um apoio eu tenho que estar dentro da área.

Isso me limita às vezes um pouco dessa participação até porque o meu meia é o Campaz e ele gosta de participar muito do jogo. Ele é um cara que você pode ver que procura a bola e muitas vezes eu fico um pouco mais, só isso. É um pouco mais difícil de você poder participar do jogo e você mais à mercê de um cruzamento, de um passe vertical e isso me deixa um pouco mais irritado porque minha vida inteira eu particípei. Eu posso não ter feito gol nenhum, mas eu participei bastante do jogo já volto para casa feliz porque é o que eu gosto de fazer.

Diego Souza, atacante do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Diego Souza, atacante do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Mas quando participa parece fácil. É fácil jogar bola para você?
Não é que é fácil, graças a Deus aqui eu tenho uma média muito boa com poucas oportunidades. As oportunidades que tenho a maioria eu consigo transformar em gol. Isso é maravilhoso. Eu procuro estar sempre bem concentrado para quando aparecer fazer o gol. No último jogo os espaços estavam aparecendo como se eu viesse como um falso 9, como um 10, e apareceu. E pegar e ajudar com o passe, abrindo espaço. A gente tem que entrar em sincronia para sempre machucar os adversários.

Artilheiro da Arena, do século, imagina se fosse apegado com os números, então.
Eu acho que é por isso que as coisas acontecem. Eu não sei quantos gols eu tenho, quantos jogos eu tenho. Para render eu tenho que estar feliz e isso é nítido. A minha felicidade de vestir a camisa, de estar em um clube tão grande com a idade que eu tenho para mim é o que mais importa.

Você rodou muito, mas é no Grêmio que faz 200 jogos. O que tem de diferente aqui?
Eu nunca fui centroavante. Fui ser mais tarde e eu tive um ano no São Paulo como centroavante e um ano no Botafogo. E eu vim concretizar essa posição aqui. Claro que a facilidade de estar em uma equipe bem montada, que a maioria das partidas tem posse de bola, tem o controle. Isso para mim é maravilhoso porque eu jogo em uma posição que estou sempre pensando na minha vida. Fui sempre um cara inteligente para analisar adversário e quando você tem essa possibilidade de pensar onde você tem que estar, as coisas foram acontecendo. Eu fui ficando cada vez mais feliz e quando a gente faz gol a felicidade é maravilhosa.

O Roger falou que seu coração desacelera na frente do gol. Sua experiência traz isso?
Sem dúvida. Imagina, eu tenho 37 anos, já passei por todas as situações possíveis no futebol e não posso me apavorar com o que eu gosto de fazer. No início de carreira tudo é novo. Por mais que tenha a qualidade absurda, ainda sente um pouco de receio para decidir uma jogada, para fazer uma situação, driblar… Quando está para fazer um gol, um pênalti, tem que resolver a partida de uma maneira mais concreta, a experiência ajuda, sem dúvida.

Já passei por todas as situações possíveis no futebol e não posso me apavorar com o que eu gosto de fazer. O que mais sei fazer é futebol. A minha relação com a bola sempre foi muito boa. Sempre tive um carinho muito grande com ela.

— Diego Souza

Diego Souza, do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Diego Souza, do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Sempre tive meu protagonismo, mas eu sempre fui um cara muito de grupo. Sempre chamei a responsabilidade dentro da minha personalidade. Eu tenho que ter minha personalidade para resolver os jogos, sim, para chamar o jogo para mim. Mas fora isso sou um cara de grupo. Os caras pintam e bordam comigo. Eu brinco às vezes que quando tem que falar sério, peço para o Kannemann falar, Geromel falar com eles porque parece que eu falo e não me escutam. Eu sou mais o cara que eles tem como amigo pra brincar.

São 37 anos, você está pensando em aposentadoria? Se sim, quando?
Sem dúvida, mas isso é o mais dificil porque sei jogar bola. Não penso ainda em parar e virar um treinador, virar um executivo de futebol. Penso em terminar minha carreira e descansar bastante, porque a nossa carreira é desgastante. Você vive concentrado, tendo pressões diárias para o resultado e meu contrato acaba em dezembro desse ano. Eu não tenho mais vontade de jogar em outro lugar. Então sem dúvida minha última equipe que vou atuar é o Grêmio.

Pode ser encerrando com o Grêmio de volta à Série A ou jogando ela ano que vem então?
Quem sabe, vamo ver, eu estou focado esse ano em colocar o Grêmio junto com os companheiros sempre porque ninguém joga sozinho, resolve sozinho. Colocar o Grêmio na Série A de volta, conseguir fazer com que volte a ser aquele bicho papão que todo mundo conhece.

Querer encerrar a carreira no Grêmio mostra o lugar desse clube no teu coração?
A gratidão que eu tenho por esse clube é fora do normal. Eu cheguei aqui em baixa porque muitos não acreditavam no meu potencial e o Renato acreditou, me trouxe de volta aquele ano e de lá pra cá subiu de uma maneira maravilhosa para mim. Quando aconteceu a fatalidade ano passado de ter caído, eu não tinha dúvida que se eu tivesse oportunidade de ficar aqui independentemente de valor ou de qualquer situação eu estaria aqui. Foi o clube que me deu a mão no momento que eu precisei, então terminar aqui para mim é mais do que gratidão.

Diego Souza, do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Diego Souza, do Grêmio, em entrevista exclusiva ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

O Grêmio teve um momento de oscilação na Série B. Qual foi a virada de chave na competição?
A Série B é uma competição difícil, complicada, de jogo guerreado. A gente já tinha entendido isso, jogos duros. O Roger não tinha todos os jogadores a disposição, uns estavam, fora, outros chegando agora. Então é muito dificil você identificar rapidamente o que tem de melhorar apra fazer as coisas acontecerem. O que a gente vê é que temos uma cozinha muito bem montada. A nossa defesa sustentou a gente até aqui. Com todo respeito, são jogadores de muita qualidade e por mais que as partidas sejam dificeis, a gente estava sempre bem arrumado. Por mais que sofresse nas partidas, tínhamos as soluções defensivas. Aí foi chegando jogadores e as coisas foram acontecendo. É natural, até se identificar, se ambientar, juntar as peças, demorou um pouco. Mudou muito as características e isso atrapalha, mas você vê que assim que conseguimos juntar todo mundo, todos à disposição, a qualidade é diferente e por isso a gente deu uma decolada boa.

A confiança de agora dá segurança que as coisas estão bem encaminhadas pro acesso?
Olha, tem que estar. Tem que estar encaminhado. A gente sabe da responsabilidade, voltar à Serie A, com tudo que envolve essa camisa, e a seriedade que estamos encarando. Isso é o mais importante, não é fácil. A gente está treinando bastante, se empenhando bastante. Enquanto matematicamente não se concretizar, a gente vai buscar e lutar com todas as forças para encaminhar logo isso. Depois que subiu, aí vamos pensar lá na frente, quem sabe conseguimos encostar nesse Cruzeiro aí.

No outro fim de semana tem uma decisão contra o Cruzeiro. É a chance para encostar no líder?
Olha, a conta que se faz no Brasileiro é essa, contra uma equipe tão grande contra o Cruzeiro, é você conseguir de repente um empate lá e ganhar em casa. Já que perdemos lá, a nossa luta agora é ganhar dentro de casa e aí fica elas por elas e a gente busque em outros jogos encostar.

Tem vários confrontos bons na Série B. Tem o Bahia, Vasco, Sport. São equipes que sem dúvida o Brasil para pra ver, porque são jogos de nível de Série A. São camisas pesadas, investimentos mais fortes e com a pressão igual à nossa.

A guinada do Grêmio passa também pelos jogos em casa. É a importância de atuar com torcida?
Dentro da nossa casa é sempre muito forte, por mais que a fase não era tão brilhante, mas dentro daqui as equipes vem nos respeitando, como se deve fazer. A gente conseguia as vitórias. Fora de casa não conseguimos repetir o mesmo desempenho. O da Chapecoense foi uma pena, porque o Bitello não viu, levantou demais o pé, foi expulso e a gente acabou tendo que mudar a estratégia. Mas já ia ser um jogo diferente, nossa equipe já estava mais encaixada. O jogo do Guarani foi um jogo mais tranquilo, com propriedade, jogamos bem. E entendo que daqui pra frente tem que ser assim. Temos jogadores experientes, de seleção e jogadores com potencial para almejar grandes coisas. Temos que por isso tudo em pratica para ganhar os jogos e concretizar essa volta à Série A.

Os quatro grandes estão uma prateleira acima na Série B?
Olha, os números dizem. Tem equipes qualificadas, bem treinadas. O Tombense vem surpreendendo bastante, primeira vez na Série B, Londrina, uma equipe que vem fazendo uma boa campanha. São equipes que não tem tanta tradição como essas que estão no G-4, mas de grandes jogadores, de uma dureza para jogar contra. Mas está meio que encaminhado, de uma forma que parece que vai ficar nisso.

Briga por artilharia da Série B passa pela sua cabeça ou não é o objetivo?
Eu tenho que fazer gols. Eu não fico muito me apegando a isso. Procuro fazer meus gols e assim vou me mantendo próximo. Depois que subir a gente consegue pensar em objetivos pessoais e como grupo para ver se eu consigo subir sendo artilheiro, é bem melhor.



Veja também