Foto: Eduardo Moura

Para grande parte da torcida, Renato Portaluppi é o maior ídolo da história do Grêmio. Já havia alcançado tal status pelos feitos conquistados como atleta, mas conseguiu ser transformado em estátua graças aos resultados obtidos como treinador. Nesta sexta-feira (18), o técnico mais longevo do futebol brasileiro completa quatro anos à frente da equipe gremista. Porém, não há clima para festejos.

A série de más atuações, que culminaram com a derrota acachapante no Chile para a Universidad Católica, pela retomada da Libertadores, faz com que alguns vejam no trabalho da comissão técnica um prazo de validade vencido.

— O ciclo do Renato acabou em 2018, junto com o futebol do Grêmio. Após este período, o peso da camiseta e um grupo experiente ajudaram a dar sobrevida. O nosso “gremismo” não pode nos cegar a ponto de ver que desse mato não sai mais coelho. A figura de Renato, o mais importante personagem da história do Grêmio, está desgastada. De maneira melancólica, vejo o encerramento de um ciclo. Renato é, e sempre será, nosso ídolo. Mas o Grêmio é maior do que todos nós — avalia o comunicador das Rádios Atlântida e 92FM, Rodrigo Adams, gremista identificado.

Logicamente, esta opinião não é unânime — nem na arquibancada e muito menos nos corredores da Arena. Há quem cite casos anteriores em que o profissional conseguiu dar a volta por cima.

— Já aconteceu outras vezes. Dou como exemplo o ano passado, quando perdemos por 5 a 0 para o Flamengo, que foi bem traumático. E, no Brasileirão, ganhamos as cinco partidas seguintes, encarreiradas. Quer dizer, ele tem um poder de recuperação muito grande — atesta o ex-presidente Duda Kroeff.

Duda, aliás, é uma das pessoas que melhor conhecem Renato. Foi na sua gestão, em 2010, que o ex-camisa 7 foi buscado pela primeira vez para comandar o vestiário. Ainda no Estádio Olímpico, tirou o clube da zona de rebaixamento para classificá-lo para a Libertadores. Depois disso, os dois voltaram a conviver em 2018 e 2019, quando o dirigente ocupou a vice-presidência de futebol.

— Acho que ele se tornou melhor, um treinador mais concentrado na profissão. Ele já era talentoso em 2010, mas ainda tinha uma coisa de jogador. Agora está mais com perfil de técnico mesmo. Por exemplo, assiste a tudo que é jogo, vem comentar sobre jogadores que viu da Série A, Série B… Naquela época, pelo menos, ele não comentava isso comigo — atesta.

Portaluppi vive sua terceira passagem como treinador gremista, mas a segunda estadia na Arena. Em 2013, chegou no meio do ano, após a demissão de Vanderlei Luxemburgo, e foi vice-campeão brasileiro. Por estes atributos, foi buscado novamente em 2016, quando a equipe vivia uma turbulência nas mãos de Roger Machado.

— Muitos diziam: “O Renato não é técnico, é boleiro, só motivador, é pensamento mágico”. Mas a torcida apoiou e eu me cerquei da opinião de amigos e pessoas influentes no clube — recorda o então vice de futebol, Adalberto Preis — Eu precisava de alguém de total confiança, para quem eu pudesse pôr todas minhas opiniões com a certeza de que elas teriam eco e resposta pronta e motivadora junto ao grupo de jogadores. Ele estava fora do mercado, aceitou um contrato curto, mas que acabou sendo renovado a cada ano. E ele está aí até hoje — completa o atual componente do Conselho de Administração tricolor.

Se há quatro anos havia desconfiança, ela foi soterrada pelas taças da Copa do Brasil de 2016, da Libertadores de 2017, da Recopa Sul-Americana de 2018 e de três Gauchões (2018, 2019 e 2020). Por isso, Preis é mais um dos que apoia a ideia de continuidade a Renato.

Foto: Reuters

— Não imagino que outro treinador possa substituí-lo. Eu vi várias situações como essa, em que o time está se reorganizando, embora com bons jogadores, mas que ainda não estão devidamente entrosados. E, com um treinador sem liderança e conhecimento, como tem o Renato, facilmente a equipe acaba afundando. Por isso, penso que, embora algumas contestações em função dos resultados, ele continua sendo disparado a melhor solução para o Grêmio — comenta.

Sem dúvidas, trata-se de um momento delicado para dirigentes e torcedores. Afinal de contas, estamos falando do terceiro técnico que mais comandou o Grêmio ao longo da história, com chances reais de assumir a ponta neste ano — está a seis partidas de superar Felipão, e a 16 de Oswaldo Rolla. Resta saber se ele conseguirá tirar o time, e a si mesmo, da atual condição.

— Não acho que o ciclo chegou ao fim, mas quando a gente olha para o passado, vai ver casos de técnicos que ficaram muito tempo e começaram a roer a corda. O Felipão ficou três anos e meio no Grêmio e saiu como campeão brasileiro. O Lula é recordista, tendo ficado 12 anos no Santos. Mas, quando chegou na primeira final sem Coutinho, Pelé e Pepe, perdeu para o Cruzeiro e caiu. O Tite, no Corinthians, também teve um desgaste, porque os jogadores haviam mudado. E essa transformação, no Grêmio, é parecida. É um time que envelheceu e perdeu a volúpia de 2017. Então, acho que ele pode continuar, mas terá que refundar o Grêmio — avalia o comentarista da Rede Globo, Paulo Vinícius Coelho.



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