Depois de oito anos, Romildo Bolzan Júnior se prepara para deixar o Grêmio após oito anos. Chega ao fim o mandato e, mais suave, aliviado, excluso de pressão, o presidente fez um balanço da sua gestão. No aconchego da sua casa, falou com do orgulho do período, assumiu a responsabilidade pelo rebaixamento, admitiu erro na saída de Renato em 2021 e afirma que entrega o clube mais organizado.

Foi quase uma década como mandatário do Tricolor. Neste período, o Grêmio pôs fim ao jejum de 15 anos sem títulos expressivos, com o penta da Copa do Brasil e tricampeonato da Libertadores. Mas nos últimos anos de gestão viu também uma derrocada que culminou no terceiro rebaixamento para a Série B do Brasileirão.

Romildo não se exime da culpa. Assumiu os erros que levaram o clube para tal caminho. Porém, também faz questão de ressaltar as coisas boas. Indicou que a troca de chaves com a OAS do Olímpico pela Arena deve acontecer em breve.

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio, faz balanço da gestão — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio, faz balanço da gestão — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Para Romildo, a sua gestão tem esse ponto como uma pendência: “honrar com a palavra do presidente Fábio Koff” em relação à compra da Arena. Admite também erro de avaliação na saída de Renato em 2021 e assegura que o treinador sabe – e assim fez – respeitar hierarquias.

Na próxima quarta-feira, Romildo Bolzan entrega o cargo máximo do clube para o presidente a ser eleito neste sábado. O dirigente atendeu aos veículos do Grupo RBS e conversou com Eduardo Deconto, da RBS TV, João Victor Teixeira, do ge, Marco Souza, de GZH, e André Silva, da Rádio Gaúcha, para fazer um balanço da sua gestão.

> Confira os principais trechos da entrevista

Compra da gestão da Arena

Gostaria muito de ter honrado a palavra do presidente Fábio Koff em relação à compra da Arena, gostaria muito de ter finalizado aquilo que o Koff começou. Nós minutamos um acordo. Trabalhamos em um acordo judicialmente e temos uma minuta do processo que está em aberto ainda que é só assinar e o assunto está concluído. Então, quer dizer, eu lamento muito não ter conseguido dar esse resultado ao presidente que ele merecia muito por conta da forma como ele conduzia esse processo.

Romildo Bolzan queria ter finalizado compra da gestão da Arena — Foto: Diego Guichard

Romildo Bolzan queria ter finalizado compra da gestão da Arena — Foto: Diego Guichard

Troca de chaves Arena-Olímpico com a OAS

O Grêmio tem uma situação que entendeu que não precisa mais ter o receio ou o medo de ir assumindo a propriedade da Arena. Nós temos uma segurança jurídica nesse sentido por conta do estudo que fizemos, o Grêmio não tem essa dúvida. Então, nós passamos para o seguinte passo, vamos trocar as propriedades, não precisa trocar administração, mas nós passamos o Olímpico, mas estamos com a propriedade da Arena no nosso nome. E isso tem uma relevância enorme, porque nós poderemos chegar em 2033 e não ter esse assunto resolvido.

Então nós estamos hoje notificando a OAS para que ela efetivamente cumpra essa parte porque o Grêmio já cumpriu a sua parte. Qual é a desoneração que eles tem que dar nesse momento? Eles têm que nos desonerar dos bancos. Nós temos metas e estratégias de ter rapidamente a administração do estádio e eles por sua vez também não estão com essa estratégia.

Provavelmente, o próximo presidente do Grêmio não vai conseguir atingir. Posso dizer pela experiência que tive nesses oito anos. Duvido que esse assunto se resolva antes de 2033. E a estratégia que nós estamos fazendo já é uma garantia de que efetivamente quando chegar 33 nós não temos dúvida. O Grêmio é dono da Arena não apenas por questão contratual, mas já documentada.

Relação com Renato

Eu não tinha nenhuma relação pessoal com ele. Foi uma relação construída quando ele veio em 2016. Esta relação se dá exatamente no nível daqueles compromissos que a gente assume. Você não constrói uma relação dessa natureza com um ídolo como ele se não tiver o primeiro elemento de lealdade e sinceridade nas relações. Além disso, franqueza e muito respeito às individualidades.

Renato e o presidente Romildo Bolzan — Foto: Lucas Uebel/Divulgação Grêmio

Renato e o presidente Romildo Bolzan — Foto: Lucas Uebel/Divulgação Grêmio

Renato é o ídolo e está num outro patamar aqui. Se alguém tiver ciúmes dele, é porque não entende a figura do Renato. Renato é uma figura absolutamente icônica, não só no campo. Ele não vai transferir esse patrimônio pessoal que ele construiu aqui dentro para qualquer outro clube. Ele vai ter isso aqui dentro. Porque aqui ele tem o respeito de todos, tem admiração de todos e vamos dizer tem a condescendência inclusive de erros que possa ter cometido. Mas com ele, todo mundo releva porque sabe que no final das contas, o Renato tem uma posição que vai acabar vitoriosa.

Renato e respeito à hierarquia

As pessoas que pensam que o Renato passa por cima. Estão muito enganados. O Renato quando chega na intimidade ele é um sujeito que não apenas pede permissão, não apenas consulta, não apenas faz isso. Lá dentro do ambiente há um senso de hierarquia profundo. Então, respeitando vai chegar e vai conseguir ter uma relação cujo resultado será extremamente positivo para todos. Para mim foi isso, lealdade, sinceridade, respeito, hierarquia e principalmente respeito as individualidades.

Saída de Renato em 2021 antes do rebaixamento

Não dá para desconhecer, havia um desgaste técnico, havia um desgaste inevitável. Havia todo um processo de não ter mais correspondência no campo, embora nós tivéssemos disputado uma final de Copa do Brasil e não fomos bem. Tivemos muito mal naquela situação de vício naquela Pré-Libertadores que acabamos desclassificados. De certa forma, existia um vazio.

Agora eu reconheço e faço mea-culpa. Ele não deveria ter saído por uma única e exclusiva razão: o elenco que estava montado era dele. À sua imagem e semelhança. Jogadores que ele trouxe, jogadores que ele confiava, jogadores que ele tinha na relação. Se ele tivesse um pouco mais de tempo e pudesse ter aproveitado melhor os jogadores que ele indicou e aquele grupo tivesse fechado mais, mesmo que tivesse aquele surto de Covid, a gente poderia sinceramente ter tido melhores resultados.

Acho que nós poderíamos ter feito uma avaliação mais tranquila sobre isso. E talvez não teria caído. Poderia ter caído, poderia, mas possivelmente nós vamos ficar sempre no imaginário de que dificilmente cairia.

Marcado com o rebaixamento

O rebaixamento é uma marca muito ruim. Eu sinceramente me penitencio e peço desculpas e perdão para a torcida do Grêmio. Eu me penitencio por ter criado esse prejuízo para a torcida do Grêmio, é uma marca profunda. Criar um prejuízo para alguém por conta de uma ação ou de uma responsabilidade que a gente tem. Isso pra mim é é uma das coisas mais decepcionantes e me desgasta, me deixa extremamente angustiado. Me sinto mal com isso. De eu ter criado esse problema. Isso me marcou profundamente.

A outra parte, eu não posso viver só dessa desgraça. Eu tenho que lembrar que 90% dos casos foram extremamente positivos. Tetracampeão gaúcho, o Grêmio é pentacampeão Copa do Brasil, é tricampeão da América, o Grêmio foi um time que disputou praticamente tudo até 2021. Eu quero que não me julguem apenas só pelo erro, mas também por todas as condições de sucesso que a gente teve. Quer dizer, o Grêmio foi um exemplo, vamos dizer assim, de como se reestrutura e como se recupera um clube no Brasil.

Presidente Romildo Bolzan discursa para elenco do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Presidente Romildo Bolzan discursa para elenco do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Continuidade ou não de Renato para a Série A

Ele é um treinador, uma pessoa que tem uma profunda identificação com o clube, ajudaria na construção de um projeto novo. E isso tem que ser previamente combinado. O modelo é de reconstrução, de fazer um elenco com mais reforços, o modelo de elenco vai ser esse. Nós talvez não tenhamos capacidade do Grêmio, mas combina com ele antes e organiza o perfil daquilo que vai ser. Feito isso, tenho certeza absoluta que o Renato é um agente capaz de organizar tudo isso.

Capacidade de contratações para 2023

Acho que o Grêmio resolve o seu problema, se os fatos econômicos e financeiros que estão para acontecer, o Grêmio resolve todo esse déficit de perda de arrecadação e da estratégia que tivemos que fazer para sobreviver a esse ano de 2022, no primeiro semestre de 2023.

Profissionalização do Grêmio

(Os candidatos à presidência) Vão se surpreender com o nível de profissionalização, com o nível de processos implantados, tanto na parte física, parte médica, parte clínica, parte de nutrição, acompanhamento fisioterapêutico, acompanhamento de recuperação. Eles vão se surpreender com os processos. Muitas vezes, quando se fala sobre isso, talvez seja um desejo. Mas quando chega lá, eles vão se surpreender com os processos de altíssima qualidade que o Grêmio possui. Faz parte do debate político.

O Grêmio é talvez um dos clubes associativos mais profissionalizados do futebol brasileiro. O Grêmio se profissionalizou muito nesses últimos oito anos. Muito. O Grêmio é altamente profissionalizado do ponto de vista administrativo, do ponto de visto do futebol e das categorias de base. O tempo vai exatamente mostrar.

Novo momento com as discussões das ligas

A Libra está surgindo aí, eu creio que veio para ficar. Vai ser um grande consolidador de negócios. Não para organizar campeonato tão rapidamente, talvez só para 2025, mas vai ser o grande mobilizador de recursos. Poderá ter logo em seguida os 40 clubes e tem exatamente a previsão de contemplar os 40 clubes da Série A e da Série B. O futebol brasileiro está sofrendo uma transformação profunda, na iminência de se transformar em um futebol muito mais capitalizado. E nós vamos ter um futebol muito mais competitivo. Agora está chegando o momento decisivo.

O que ficará daqui a dez anos

A marca do rebaixamento é definitiva. Os títulos também são definitivos. As duas coisas são definitivas. Eu não quero dizer uma coisa que possa parecer ofensiva. Mas o Grêmio poderá ter gestões que apagam todas as demais pelo sucesso e pelo insucesso. Esta é a vida para quem tem uma exposição pública tão grande como o presidente de clube.

Desgaste com a possibilidade de candidatura ao Governo do RS

Eu não tinha condições morais e éticas de sair do Grêmio. Não tinha. Eu tinha que ressurgir, tinha que voltar, tinha que conseguir voltar para Série A, não tinha o que fazer. Cometi um erro de certa forma, deixei também correr um pouco, né? Deveria ter terminado logo no começo, isso foi um erro que eu cometi, devia ter bloqueado logo na saída. Mas alimentei um pouquinho isso também, né? Deixei aberto. Acho que cometi um erro nesse particular. Deveria ter cortado isso na raiz.

Duas decisões complicadas: saída do Roger em 2016 e na atual temporada

São duas situações diferentes. Em 2016, eu levei duas horas do vestiário em São Paulo para demovê-lo da ideia. Foram duas horas tentando mostrar que não tinha nenhuma culpa. Tentei demovê-lo de uma maneira muito forte e não tive êxito. Eu reputo o Roger tecnicamente um dos melhores técnicos do futebol brasileiro.

O Roger dessa vez, foi um momento de um ambiente muito complicado e que não poderia ter nenhum ambiente de desconfiança e insegurança. Nós não poderíamos correr risco de gerar um ambiente capaz de não mais ter vitórias a ponto de garantir a nossa classificação. E na minha avaliação foi no sentido de que aquele ambiente não estava ficando seguro. Não por conta do Roger, não por conta do campo, mas porque a torcida de certa forma deixou desestabilizado o comando técnico. Poderíamos ter chegado com o Roger? Bem provável que sim, seria mais doloroso talvez, mais penoso por conta do ambiente, mas seria absolutamente seguro também que tecnicamente era possível.

Como sai o Grêmio após oito anos de gestão

O Grêmio tem altos e baixos. O preço da Série B, da queda da arrecadação, de perder R$ 200 milhões de receitas realizadas em 2021, aquela manutenção dos contratos que não pôde derrubar e a necessidade técnica de conseguir manter um time minimanente capaz de subir novamente, que não foi a última bolachinha do pacote, mas foi um time que a gente tinha segurança que era capaz de subir.

Era um elenco que poderia se dizer o melhor elenco da Série B, tinha condições de subir, embora todas as dificuldades às vezes da própria campanha que aconteceram. Manter tudo isso teve um preço. E esse preço de certa forma ocasionou uma perda de brilho do ponto de vista do resultado financeiro, das realizações orçamentárias e sua execução. Teve um preço.

Pegamos um Grêmio que há 15 anos não tinha títulos e entregamos um Grêmio com títulos. Nesse sentido, entregamos um Grêmio melhor. Mas vai ficar essa marca profunda (rebaixamento), que vai ter reflexos em um ano, que pode ser recuperado. O Grêmio não vai demorar um semestre para recuperar toda a sua tranquilidade financeira, se as coisas acontecerem como estamos imaginando, como estamos deixando hoje.

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Trunfos do Grêmio para 2023

Eu acho que o Grêmio tem processos muito interessantes. A nova direção do Grêmio vai conviver com processos de dinâmica, de controle, um processo financeiro, um processo interno de administração muito mais qualificado, gerência jurídica, gerência financeira, o próprio CEO criou uma condição de fiscalização de todos os demais gerentes, um sistema de controle patrimonial muito bom, um controle de processos internos que é a SAP. Tudo isso foi colocado em prática.

O Grêmio tem, no nível de organização, uma situação tranquila. E o futebol tem agora que fazer as adaptações que precisa. Não partindo da terra arrasada, mas da necessidade de reforços.

— Romildo Bolzan

O futuro do Grêmio com SAF ou não

Eu não acredito em modelo de venda. Cada clube tem uma natureza. Tem clubes que entraram no fundo do poço de tal forma que só viram isso como alternativa. E aqui ressalto dois: o Vasco e o Cruzeiro. Foram buscar soluções exatamente em cima disso. O Grêmio, para mim, não pode ser um clube que simplesmente venda seu departamento de futebol. O Grêmio pode buscar parceiros, de capitalização de processos de base, de processos de melhorias de estruturas, de jogadores de nível profissional. Nós não temos nenhuma oferta em exame, temos nesse momento um grupo que estuda e aprofunda a situação sobre a SAF e um grupo que também busca de certa forma um modelo que possa ser bom para o Grêmio no sentido de buscar mais investimentos de capitalização.

Orgulho ao deixar o cargo

Não tenha dúvida. Embora o revés, foram oito anos de grandes conquistas, de muita dedicação ao clube, muito zelo e muito cuidado com o clube. Esse último ano foi terrível, mas nós nos preocupamos muito em zelar pelo Grêmio, cuidar do Grêmio. E os resultados aconteceram. Aquele muralzinho que tem ali, aquele museuzinho que tem ali, é muito mais um registro pessoal de orgulho profundo.



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