São 19 dias a separar a quinta-feira que ficou marcada pelo terceiro rebaixamento do Grêmio e esta terça. Dias de pouco sono e muita tristeza para o presidente Romildo Bolzan Júnior. Em entrevista exclusiva ao ge e à RBS TV, não foge à responsabilidade pela queda para a Série B, assume os erros de 2021 e adianta o trabalho que vem pela frente para recolocar o clube na primeira divisão.

Na conversa, Bolzan passa pelos equívocos que geraram o rebaixamento até a continuidade de Vagner Mancini no comando para o próximo ano. Mesmo com títulos da Copa do Brasil, Libertadores e Recopa no currículo, se vê lembrado mesmo devido ao fracasso de 2021.

Quem registra bem a história, pode registrar as duas coisas. Mas hoje meu sentimento é que vou ser lembrado como o presidente do terceiro rebaixamento.— Romildo Bolzan ao ge

Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio — Foto: Lucas Bubols/GloboEsporte.com

Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio — Foto: Lucas Bubols/GloboEsporte.com

Confira os principais trechos da entrevista:

Teve tempo para refletir desde a última rodada do Brasileirão e buscar diagnóstico sobre os motivos da queda?

Claro que sim, a gente já tem uma noção. Basicamente, é uma situação que estávamos disputando uma final de Copa do Brasil, não tivemos nenhum sistema de preparação prévia de consequência do ano. Montamos o elenco em cima disso, fomos jogar rapidamente a Pré-Libertadores, a Sul-Americana, trocamos o corpo técnico. Saiu o Renato. Jogadores que estavam chegando como Rafinha, Douglas Costa, enfim. Foi um processo muito rápido no sentido de dar continuidade. O próprio treinador que veio, Tiago Nunes, teve Covid. Depois do Gaúcho, tivemos uma série de situações dessa natureza, que de certa forma deu uma desestruturada na nossa preparação do ponto de vista físico e técnico.

Tivemos uma transição que montamos no início do ano, e veio com muitos jovens. Eles ficaram por ali, acabaram tendo que jogar em função dessas situações técnicas. No início do Brasileiro, o Tiago perdeu aquelas partidas. Sai o Tiago, vem o Felipão. Depois veio o Mancini. Todo esse conjunto de situações que não deu liga no futebol, no grupo, em tudo, não deu o resultado final de permanência na Série A.

Faria algo diferente?

Poderia ter feito, mas não cabe aqui. Se eu disser alguma coisa nesse sentido, vou polemizar uma situação que poderia justificar algumas coisas, mas poderia comprometer outra. Não estou disposto mais a este tipo de coisa. Já paguei toda minha conta, já estou por baixo, no fundo do poço e agora estou no momento de amargura. Na verdade, tenho que trabalhar intensamente para um contexto de recuperação de elenco, sabendo que algumas coisas poderiam não ter acontecido e aconteceram em 2021. Que não se repita em 2022.

Como o presidente tão vitorioso lida com uma queda como esta?

Me confesso muito abatido, muito entristecido, meu sono tem sido muito leve. Me acordo com dor, amargurado, angustiado. Porque coloco em mim a responsabilidade de tudo isso. Aliás, foi durante o ano, quando as coisas não estavam dando certo, foi de uma condição de muita dificuldade emocional de enfrentamento, mas enfrentando, fazendo o que tinha que fazer. Aquele momento já passou, o segundo momento está vindo e o terceiro vem logo na reconstrução do que temos que fazer, com um conceito muito claro de jogadores que temos que trazer, daquelas posições que estamos carentes. Dar ao treinador um plantel que lhe atenda a necessidade de um time competitivo. Não apenas para voltar. Também para disputar o Gauchão, a Copa do Brasil, ser aquilo que efetivamente significa a capacidade de competir do Grêmio.

Presidente Romildo Bolzan Jr. anunciou renovação com Renato pouco antes de sua saída — Foto: Lucas Uebel/Divulgação Grêmio

Presidente Romildo Bolzan Jr. anunciou renovação com Renato pouco antes de sua saída — Foto: Lucas Uebel/Divulgação Grêmio

Se falou que o Renato tinha um poder muito grande no clube. Como enxerga a saída dele, principalmente naquele momento?

Não paramos nunca de jogar. O declínio técnico que o time tinha no próprio Brasileiro, naquelas últimas cinco partidas perdidas… Depois a nossa fragilidade de enfrentamento contra o Palmeiras e Independiente Del Valle. Tudo isso acabou desgastando aquilo que já vinha sendo desgastado. Foi uma avaliação que fizemos e também do próprio Renato. Eram quase cinco anos de convivência. Às vezes gera ambientes que ficam um tanto acostumados com poucas reações, no modo de fazer as coisas. Então, é natural que tenha sua ruptura. E teve. Certo ou errado, teve. Mas naquele momento era o que tinha que ser feito.

Mantenho uma relação excepcional com ele até os dias de hoje. Permanecemos com uma boa amizade, mas são processos que acontecem. Cada um fica com as suas memórias. A memória dele no clube é de um treinador vitorioso. A nossa memória foi de um presidente que tirou 15 anos da fila, depois outro título, fizemos aquele processo. O que aconteceu agora eu não vou tratar como acidente. Vou tratar como uma situação que não deveria ter acontecido, mas aconteceu. E vou tratar com as devidas situações para corrigi-la.

Daqui a 10, 15, 20 anos, você acha que vai ser lembrado como o presidente das conquistas ou do rebaixamento?

Quem registra bem a história, pode registrar as duas coisas. Mas hoje meu sentimento é que vou ser lembrado como o presidente do terceiro rebaixamento.

Como o senhor enxerga a permanência do Douglas Costa no clube? Conversa com ele?

Não conversei ainda, e temos contrato em vigor. Se ele não tiver situação de algum outro negócio que possa trazer para nós, vai permanecer no clube. É assim que funciona. A única coisa que talvez tivéssemos que fazer é uma adaptação nos fluxos de pagamento dele. Isso é natural. Todos vão sofrer esse tipo de abordagem, para se readaptar. Vamos levar ainda uns dois meses para fazer todo esse ajustamento interno.

Douglas Costa cumprimenta Romildo antes de voltar ao Grêmio — Foto: Eduardo Moura/GloboEsporte.com

Douglas Costa cumprimenta Romildo antes de voltar ao Grêmio — Foto: Eduardo Moura/GloboEsporte.com

Denis Abrahão (vice de futebol) e Mancini vão permanecer para a próxima temporada. Como fazer esta reformulação?

As permanências não são em função do resultado, são em cima daquilo que conseguiram fazer nesse pequeno período. E todo processo de uma reformulação não é terra arrasada, ele começa de alguma coisa. O Grêmio vai se desfazer de jogadores, trazer outros, mas manter praticamente uma boa parte do seu elenco. Aquilo que foi positivo tem que ser preservado. Aquilo que temos que melhorar, tem que ser melhorado.

Há uma folha paralela de rescisões? Este valor preocupa?

A única rescisão feita nesse final de ano avançada é o Alisson. Esse, sim, posso dizer que está se encaminhando. Fora isso, não temos nenhuma outra situação, porque as negociações estão sendo feitas para repassar vínculos, fazer empréstimos, fazer vendas. Estamos trabalhando muito forte nesses contextos. Então, passa por aí.

A ideia é anunciar algum reforço a mais até o dia 31 (sexta-feira)?

É possível. Nós temos situações avançando, em andamento e é possível anunciar, sim.

O Grêmio está no quinto ano de superávit. No incio de 2021, era apontado como um dos que brigariam por título com Palmeiras e Flamengo. Como um clube tão bem estruturado cai?

Essa pergunta me faço todos os dias: “onde eu falhei dando as condições plenas para que tudo funcionasse e que acabaram não funcionando no Brasileiro?”. De vez em quando me passa pela situação que eu preciso dar um pontapé na porta, dar um berro, para chamar a atenção. Mas a gente trabalha com pessoas de alta qualificação, de alto nível, altamente remunerados e todo mundo comprometido com a única causa. Mas esses ambientes, aquilo que significaria imprevisibilidade total de uma situação emocional, de perda completa de confiança, também acontece.

Onde o senhor acha esse apoio emocional para seguir?

Eu já sou calejado. Tenho as costas largas, o lombo muito duro. Já vivi situações de constrangimento, de traições, de oportunismo e sempre tive paciência para aguentar esses ambientes e conseguir superá-los. Neste momento, por estar em absoluta fragilidade com o que aconteceu, estou vendo, olhando, ouvindo, lendo, tentando me entender nos ambientes. Estou trabalhando muito com esse novo elenco com o Denis e o Diego Cerri (executivo), tentando ajudá-los a construir esses ambientes para a terminação dos negócios. Deixo a carruagem passar, tenho que ficar quieto e trabalhar, porque por mais que eu queira fazer debates, estou fragilizado. Faço minha completa autocrítica, assumo as responsabilidades, não terceirizo essa culpa. Creio que vamos fazer todos esforços para passar por cima das dificuldades de momento.

O rebaixamento do Grêmio impactou na sua rotina e impacta seus projetos pessoais e políticos depois do mandato?

Projeto político eu nunca admiti. Não tem a mínima possibilidade nem nada mais. Por ter vergonha na cara, eu tenho um certo ressentimento de me expor. Dei esse resultado ruim para a torcida do Grêmio, é um momento que a gente tem que ter uma certa preservação, recolhimento, até conseguir reorganizar as coisas e depois voltar para o cenário como tem que voltar. Não para fazer o debate da lambança, do bate-boca, para fazer a resposta daquele que está indignado. Eu não censuro ninguém, cada uma diga o que quer dizer. Eu conheço muito bem aqueles que em algum momento sentaram na minha frente, tomaram café, tomaram chope comigo e disseram coisas bem diferentes que estão dizendo hoje.

Será um ano mais difícil para o torcedor. Já há planos e ações para aproximá-lo?

Vamos trabalhar intensamente tudo isso e vamos tentar proporcionar para a nossa torcida uma interação absoluta, uma sintonia absoluta, uma empatia absoluta, uma situação de completa capacidade de se relacionar, aberta, franca. Vamos buscar criar situações necessárias para chamar a torcida e pedir o apoio necessário de modo que a gente possa sempre lotar o estádio, manter um quadro social saudável.O Grêmio tem ações que estão sendo trabalhadas e teremos muito mais no ano que vem.

Diretor Sergio Vasques e vice de futebol Denis Abrahão foram mantidos para 2022 — Foto: Lucas Uebel/DVG/Grêmio

Diretor Sergio Vasques e vice de futebol Denis Abrahão foram mantidos para 2022 — Foto: Lucas Uebel/DVG/Grêmio

Cruzeiro, Bahia, Vasco… São esses os principais rivais na Série B?

Isso é um equívoco, porque as grifes às vezes não são as que vão fazer o melhor futebol. Em tese, pode dizer que sim. Mas vai determinar quem fizer o melhor elenco, o melhor futebol, quem tiver a melhor estrutura, a melhor capacidade de enfrentar a Série B. Não vejo isso como barbada, não. Está lá o Vasco, Cruzeiro, Sport, Ponte Preta, Guarani. Eu vejo situações bastante complicadas. Temos que nos organizar para não ter dificuldades e sobressaltos. Escapamos de 2005 por um detalhe. O Cruzeiro não conseguiu escapar nem por detalhe, não tem chegado nem perto dessas situações. Então, o Grêmio sabe perfeitamente os cuidados de um campeonato dessa natureza.

Qual o maior desafio para dar a volta por cima?

Acertar em cheio esse nível de contratações que estamos fazendo. São contratações que poderiam ser feitas para a Série A. São jogadores importantes no perfil que a gente entende que estão suprindo nossa carência. O que temos que fazer é todo esforço para esse grupo dar liga suficiente e fazer um time comprometido para vencer o Gauchão, a Copa do Brasil e a Série B.Esqueçam o Romildo que deu títulos, porque esse episódio para mim é muito marcante. Então, peço desculpas. Se quiserem penalizar alguém, penalizem a mim. Mas não o Grêmio. O Grêmio é muito maior que todos nós e vamos dar a volta por cima.— Romildo Bolzan Júnior

Diretoria do Grêmio até 2022  — Foto: Luciano Amoretti/Grêmio

Diretoria do Grêmio até 2022 — Foto: Luciano Amoretti/Grêmio

Que Grêmio o senhor quer entregar ao seu sucessor?

Vamos ter janeiro e fevereiro de readequação de todo nosso encaixe financeiro. Temos dois grandes desencaixes financeiros nesse final de ano: o não pagamento do Pepê por parte do Porto, isso nos deu um prejuízo enorme no nosso fluxo. Se a 16ª posição tivesse acontecido, teríamos mais R$ 11 milhões, estava sendo esperado para o nosso fluxo. Vamos ter que readequar muitas coisas. Quero entregar para o meu sucessor um Grêmio equilibrado do ponto de vista orçamentário, a devolução da Série A e, se Deus quiser, campeão da Copa do Brasil, campeão gaúcho e retornando já para uma Libertadores em 2023.

Esse Grêmio já vai ter comprado a Arena?

Dificilmente. É um assunto que dia 22 de fevereiro teremos mais uma situação de uma outra audiência. O assunto é complexo, de muita dificuldade. Parecia fácil, porque a minuta foi feita, mas o Grêmio faz suas auditagens, aquilo que é necessário para ter noção do negócio. Estamos em uma posição de que, se se não tivermos situações novas, se encaminha para uma dificuldade enorme de ser concluído. Mas estamos em processo de negociação aberto ainda.



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