A segunda passagem de Douglas Costa pelo Grêmio durou exatamente oito meses. Oficializado pelo Tricolor no dia 21 de maio de 2021, o atacante acertou a rescisão de contrato nesta sexta-feira diante das dificuldades financeiras encontradas no clube gaúcho para arcar com os pagamentos do jogador em ano de Série B.

Ainda que curto, o período de retorno ao clube do coração deu – e muito – o que falar fora dos gramados. Dentro de campo, o atleta de 31 anos ficou longe de render o que se esperava dele. Inclusive, sua presença não foi suficiente para evitar o terceiro rebaixamento da história.

Douglas Costa vestiu a camisa 10 na volta ao Grêmio — Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Douglas Costa vestiu a camisa 10 na volta ao Grêmio — Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Douglas disputou 28 jogos pelo Grêmio na temporada passada, 21 deles como titular e apenas nove disputados do início ao fim dos 90 minutos. Foram apenas três gols marcados, um na derrota para o Sport, outro no empate com o Cuiabá e o último – e polêmico – contra o Atlético-MG.

Abaixo, o ge relembra os passos de Douglas Costa em oito meses de Grêmio:

Vídeo vazado antes do anúncio

Em abril, a direção tricolor intensificou as conversas com o próprio Douglas e seu estafe. A negociação foi complexa, pois envolvia o Bayern de Munique, clube ao qual o jogador estava emprestado, e a Juventus, detentora dos direitos econômicos.

Além disso, o clube gaúcho precisava colocar as contas na ponta do lápis para ter certeza de que o alto investimento não traria problemas ao projeto de sanidade financeira levado à risca desde o começo da gestão do presidente Romildo Bolzan Júnior.

Burocracias vencidas, os torcedores souberam da confirmação do reforço com um vídeo vazado e até publicações da Juventus e do Bayern antes mesmo do Tricolor.

A torcida vibrou com o anúncio de Douglas e lembrou a decepção com Ronaldinho, que nunca voltou ao Grêmio. O Raio, como é conhecido, cumpriu a promessa de voltar e foi anunciado 11 anos após deixar o antigo Estádio Olímpico.

O anúncio com a camisa 10

O anúncio em meio a uma noite chuvosa de maio provocou a venda de mais de 2 mil camisas nas três horas seguintes. O alvoroço só foi possível porque Douglas agiu nos bastidores. Inclusive, ligou para Jean Pyerre pedindo a camisa 10 – o antigo dono ficou com o número 88.

À época, o então vice-presidente de futebol Marcos Herrmann cogitou que a contratação de Douglas Costa era a maior da história do Grêmio. O atacante falou na entrevista de apresentação que era o desafio o mais importante da vida.

Estreia com derrota

A estreia demorou quase um mês para ocorrer. Douglas não atuava desde fevereiro. No dia 17 de junho, entrou no segundo tempo da derrota para o Sport por 1 a 0, na Ilha do Retiro.

Os primeiros passou foram ainda sob o comando de Tiago Nunes. Com Felipão, o camisa 10 engatou sua maior série como titular desde 2016.

A sequência foi interrompida para o atleta casar em Punta Cana, na República Dominicana, enquanto o Grêmio afundava no Z-4 do Brasileirão – ainda que esse ponto tenha sido discutido durante a negociação para contratação.

Lesões e o primeiro gol

Veio então o primeiro desconforto muscular e, semanas depois, a lesão confirmada. Um mês após a recuperação, Douglas marcou seu primeiro gol e encerrou um jejum de mais de 10 meses.

O golaço, diga-se de passagem, não adiantou nada, porque o Grêmio perdeu para o mesmo Sport, por 2 a 1, em uma Arena lotada.

Na primeira quinzena de novembro, Douglas Costa teve a segunda lesão muscular. Desta vez, porém, voltou antes dos 20 dias previstos pelo departamento médico.

Enquanto isso, o time continuava a cumprir o rito de passagem para a Série B. Em entrevista ao Canal Pilhado, no YouTube, prometeu que permaneceria no Grêmio em caso de queda. Ainda assim, cobrou reforços e ironizou sobre o tão propalado superávit.

Foto: Feliz Zucco

O primeiro estremecimento

O penúltimo jogo no retorno ao Tricolor foi contra o São Paulo, na Arena, uma vitória por 3 a 0. No segundo tempo, durante sua substituição, atrasou a saída de campo e levou o terceiro cartão amarelo, o que lhe deixou suspenso para a partida decisiva diante do Corinthians.

Cobrado por torcedores, o jogador foi às redes sociais e proferiu xingamentos, já que sua versão era contrária às imagens. Mesmo assim, ele viajou a São Paulo para apoiar os companheiros em Itaquera.

A polêmica do casamento

No dia 6 de dezembro, o técnico Vagner Mancini lamentava o falecimento de sua mãe em Ribeirão Preto. Horas depois, à noite, Douglas Costa pediu liberação dos treinos para sua festa de casamento, que aconteceria no Rio de Janeiro. No dia 9, o Grêmio jogava a última rodada na tentativa de evitar o rebaixamento no Brasileirão.

O pedido foi negado na mesma hora, mas o dirigente garantiu o jogador “muito a fim” de livrar a equipe da queda. Então, Douglas treinou normalmente. Contudo, sobrou tempo para esposa Nathália Félix fazer um desabafo no Instagram sobre o caso.

A gota d’água

O Grêmio entrou em campo para enfrentar o Atlético-MG, na Arena, com a necessidade de vitória e resultados paralelos para não cair.

Titular, Douglas Costa recebeu vaias já no anúncio da escalação por conta das polêmicas extracampo. Mas ele fez boa partida e iniciou as jogadas dos dois primeiros gols.

Ainda fechou o placar de 4 a 3 após lançamento de Ferreira. Porém, na comemoração, correu em direção à torcida, deu um “tchauzinho” e apontou para o número 10 às costas. A situação foi vista como desrespeito pelos torcedores.

Reuniões para decidir futuro

Douglas Costa entrou em 2022 sem ter certeza de onde atuaria na nova temporada. Uma cláusula no contrato de empréstimo junto à Juventus apontava que ele renovaria com o Grêmio automaticamente até o fim de 2023 caso os italianos não solicitassem sua volta.

Só que os altos valores para manter um jogador de padrão europeu durante um ano de Série B fez o clube repensar a situação. O vice de futebol Denis Abrahão chegou a indicar a saída do atacante devido ao custo.

Clube e o agente Junior Mendonza prometeram se reunir para aparar as arestas e chegar a uma definição durante as férias. Enquanto isso, Atlético-MG e São Paulo fizeram consultas para contratar Douglas. No início de janeiro, o Tricolor Paulista se retirou das negociações.

Em meio a tudo isso, surgiu a informação de que o casamento de Douglas, adiado no começo de dezembro, ocorreria no dia 19 de janeiro. A torcida mais uma vez se exaltou, pois o atleta estaria em pré-temporada. Contudo, tratava-se apenas de um “pré-agendamento”, e a festa novamente não aconteceu.

Assim, a direção esperou a reapresentação de Douglas para debater mudanças no contrato. Principalmente porque o atacante teria de receber R$ 2,5 milhões em fevereiro, conforme previsto em contrato, e a situação de Série B deixou o clube sem fluxo de caixa.

O fico e o adeus

Nas últimas semanas, o Los Angeles Galaxy, dos Estados Unidos, apareceu também como interessado em Douglas Costa. À época, o jogador estava em isolamento por ter contraído o coronavírus. Até por isso, sequer havia se reapresentado.

A primeira reviravolta veio no dia 12 de janeiro. No Instagram, Douglas divulgou uma carta à torcida na qual pedia desculpas por “atitudes impulsivas” e garantia: ficaria no Grêmio em 2022. Disse ainda que não atuaria em outro clube brasileiro.

As palavras do atleta deram ares de “segunda chance” no clube. Recuperado da Covid-19, Douglas voltou a treinar normalmente no fim de semana passado. Só que a direção manteve a preocupação com os altos valores envolvidos na manutenção dele em 2022.

Em contato com o ge na quinta-feira, o presidente Romildo Bolzan Júnior admitiu a dificuldade e avisou que trabalhava junto ao jogador e seu estafe para “equacionar” a situação.

A solução, no entanto, foi a rescisão de contrato. O jogador deixou a concentração gremista nesta sexta-feira e segue com futuro incerto. Grêmio e estafe de Douglas acertam os detalhes burocráticos para oficializar o rompimento de um retorno curto, mas recheado de polêmicas e reviravoltas.



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