Quando se reuniu com o presidente Romildo Bolzan em fevereiro para tratar de seu futuro, Renato Portaluppi precisou de alguns poucos minutos para acertar (mais uma) renovação com o Grêmio. A conversa entre mandatário e treinador é um ritual que marca cada fim de temporada gremista desde 2016.

Mas o técnico mais longevo do Brasil prolongou um tanto mais o papo, com um pedido em forma de exigência para seguir no clube. Seria preciso abrir o cofre e investir mais para montar um elenco em condições de brigar por títulos em 2021.

A demanda de Renato é o ponto de partida para uma mudança de postura do Grêmio no mercado em busca de reforços para a temporada. A diretoria gremista passou a ambicionar alto e a tratar com nomes de peso. O clube quer de duas a quatro peças a nível de titularidade incontestável.

E isso explica por que o torcedor passou a ver a profusão de notícias de um Tricolor disposto a abrir o cofre para buscar jogadores do quilate de Rafael Borré, Soteldo, Claudinho, Douglas Costa…

Presidente Romildo Bolzan Júnior e técnico Renato Portaluppi — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Presidente Romildo Bolzan Júnior e técnico Renato Portaluppi — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Estamos no mercado e vamos reforçar o grupo. Pedimos um pouco de paciência. Uma das promessas do presidente quando renovei foi que ele iria contratar. E vai contratar— Renato Portaluppi

Até o momento, o clube anunciou apenas o lateral-direito Rafinha e o volante Thiago Santos como reforços. As tratativas mais “pesadas” estão congeladas até a definição da vaga na fase de grupos da Libertadores.

Mas os valores tratados evidenciam a mudança na postura. Em 2020, Renato pediu Keno e Pedro à diretoria, que não avançou pela questão financeira. Em 2021, o Tricolor oferece cifras bem mais altas do que as que pagaria aos dois alvos do ano passado.

O Tricolor propôs US$ 6 milhões de luvas (R$ 34,54 milhões) e US$ 2 milhões (R$ 11,51 milhões) de salários para Borré, em uma tentativa até agora frustrada. Por Soteldo, a quantia a pagar seria de US$ 5 milhões (R$ 28,54 milhões) por 50% dos direitos.

Contas em dia

A exigência de Renato fez o Grêmio aceitar abrir os cofres por reforços. Mas de nada adiantaria o ídolo bater o pé por um grupo mais forte se estes cofres estivessem raspados. E aí está outro ponto-chave para a postura arrojada gremista: as contas em dia e a estabilidade financeira.

Se o treinador deu a largada por um projeto mais ambicioso na temporada, a restruturação financeira nos anos da gestão de Romildo Bolzan é o que permite ao clube aumentar os investimentos em 2021. O Grêmio vem de temporadas seguidas com superávit e aumento de receitas.

O clube fechou 2020 com superávit de R$ 38 milhões, mesmo sob efeitos da pandemia do coronavírus. Isso graças a um plano de contingência lançado pela diretoria em abril passado.

E vem sendo assim desde 2015, o último ano que o Tricolor fechou no vermelho. De lá para cá, são cinco anos seguidos com superávit. E a torcida chega a brincar, em tom de cobrança, que está “cansada” de celebrar bons números e não ter o retorno em contratações.

Até porque os valores obtidos pelo clube com vendas são imensamente superiores aos investimentos. De 2016 para 2017, o Grêmio mais do que triplicou a receita com negociações. O clube superou R$ 100 milhões nas três últimas temporadas e já bate na cada de R$ 85 milhões em 2021.

Renato chegou a dizer que o Grêmio faturou R$ 1 bilhão em vendas desde sua chegada. Não é para tanto, mas o número é alto: R$ 522 milhões no total. 

Quanto o Grêmio arrecadou com a vendas ano a ano:

  • 2021*: R$ 85 milhões (número aproximado até agora)
  • 2020: R$ 100.517.000
  • 2019: R$ 107.821.000
  • 2018: R$ 134.268.000
  • 2017: R$ 76.796.000
  • 2016: R$ 17.902.000
    Fonte: balanços financeiros do clube

Não à toa, as receitas do clube também subiram. O último balanço financeiro divulgado pelo Grêmio mostra que o clube registra evolução nos valores recebidos em todos os anos desde 2015. A exceção fica por conta de 2020, mas há um motivo para isso.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

A última temporada se arrastou até 2021 com jogos do Brasileirão disputados em fevereiro, e a final da Copa do Brasil, em março. Assim, o Tricolor recebeu R$ 53,9 milhões dos R$ 117,5 milhões de direitos de TV em 2021.

Não fosse isso, o clube registraria pela primeira vez em sua história mais de R$ 500 milhões em receitas em um único ano. Como este valor ficou para 2021, houve redução nas receitas na comparação com 2019.

Em todos esses anos, o Grêmio fez investimentos, verdade seja dita. Pagou 2,5 milhões de euros (R$ 10 milhões à época) para contratar André do Sport em 2018. No mesmo ano, gastou R$ 9,5 milhões para contratar Marinho. E em 2019, buscou Diego Tardelli com vencimentos próximos a R$ 1 milhão.

Valores consideráveis, mas que estão distantes das cifras com que o clube lida e está disposto a pagar em 2021. E pode pagar, porque usou os anos sucessivos de superávit para quitar pendências financeiras.

Em 2015, o Grêmio tinha um total de R$ 85 milhões em dívidas bancárias, dos quais R$ 69 milhões de curto prazo. Cinco anos mais tarde, o clube reduziu em 91,7% este valor. O balanço de 2020 aponta R$ 7 milhões em dívidas, dos quais, R$ 3 milhões a curto prazo.

O Grêmio encerrou 2020 com mais dinheiro em caixa – R$ 10 milhões – do que débitos devido a empréstimos bancários. Foi a primeira vez que isso ocorreu nos últimos seis anos.

Todo este cenário permite ao Tricolor mirar alto no mercado de transferências, disposto a abrir a carteira. Mas no momento, o clube deixa todas as tratativas em banho-maria. Primeiro, precisa passar pelo Independiente del Valle e avançar à fase de grupos da Libertadores.



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