Foto: Lucas Uebel

Marcelo Grohe desembarcou em Porto Alegre, na manhã de quinta-feira, em meio a um devaneio: era campeão da Libertadores pelo Grêmio e peça fundamental da conquista. Ao lado da delegação, foi recebido nesse sonho como herói, um gigante sob as traves, imortalizado por ao menos duas defesas históricas na competição. E, em meio a esse sonho, soube que recebeu elogios até de Gordon Banks, o homem que parou Pelé na Copa de 1970.

 Tudo isso estava nos pensamentos de Grohe enquanto o trio elétrico que carregava os jogadores circulava pela capital gaúcha, arrastando um multidão de gremistas eufóricos. Ou então no momento em que recebeu o afago carinhoso da esposa Paula e abraçou o pequeno Pietro, filho de dois anos. Foi ali que descobriu que o sonho que um dia soou impossível havia se tornado realidade.

“Estou anestesiado, rouco, sem dormir. Para mim, é fantástico. Me pergunto o tempo todo: será que é verdade esse sonho?” (Marcelo Grohe)

Em conversa, o goleiro do Grêmio lembrou dos feitos atingidos na Libertadores. Sorriu ao falar de quando parou Ariel, em Guayaquil, nas semifinais, ao mesmo tempo em que recordou do salto para a defesa da cabeçada venenosa de Braghieri, na Arena, no primeiro jogo da final. Em ambas defesas, recebeu comparações com Banks. E tomou partido.

– Fico com a minha então, que tá tudo certo – sorri.

Agora, Grohe passa a sonhar de olhos abertos. Movido a metas, almeja chamar atenção de Tite na Seleção. E já aspira um salto ainda maior: o da conquista do Mundial de Clubes, quem sabe em cima do poderoso Real Madrid de Cristiano Ronaldo e cia. Se antes esses sonhos já pareceram tão distantes, agora ninguém mais duvida do camisa 1 que entrou para o hall dos maiors arqueiros da história do Grêmio.

Marcelo Grohe sonha com volta a Seleção  (Foto: Diego Guichard)

Confira abaixo como foi o bate-papo com Marcelo Grohe:

Como é pra você passar por esse corredor da Arena, agora como campeão da América?
Marcelo Grohe –
 Sentimento único, sem palavras para descrever. Cada vez que voltávamos de uma partida… Hoje retornamos a esse cenário campeões da Libertadores, da América. Ser recebido pelo nosso torcedor da forma que foi pelas ruas de Porto Alegre, aqui dentro da Arena. Vai ficar marcado na minha memória e dos companheiros. Momento eterno.

Sabia que Gordon Banks assistiu a sua defesa contra o Barcelona-EQU e disse que o lance foi incrível?

Estou sabendo agora. Mais uma coisa que não tenho como descrever. Se ele que praticou a defesa do século falou isso…

“Estou muito mais maduro, calejado. Nesse tempo que passei dentro do clube tive todas experiências possíveis. Momentos bons, outros difíceis, vitórias, derrotas”

Você já se pegou chorando após o título?
Estou anestesiado, rouco, sem dormir. Para mim é fantástico. Me pergunto o tempo todo: será que é verdade esse sonho?. Essa manifestação da torcida faz com que acreditemos mesmo em tudo o que aconteceu. Nós somos campeões da América! Todos estão de parabéns. Jogadores, clube, comissão técnica, direção e a torcida, que merece tanto.

Há mais de um ano, você teve atuação importante na classificação contra o Atlético-PR, estreia do Renato pelo Grêmio. Após falhar no tempo normal, pegou pênalti e desabafou. Já esteve perto de deixar o Grêmio?
Se houvesse a eliminação naquele momento, ficaria uma situação ruim. Era uma fase difícil, de muita cobrança, sem título há muito tempo. Se o clube fosse eliminado, a culpa recairia sobre mim, pelo gol que sofri. Eu entendi que seria necessário procurar outros ares se fosse eliminado. Quis Deus que essa nossa história fosse totalmente diferente com a conquista da Copa do Brasil e, agora, com o título da América. Estou muito grato a Deus e feliz por viver tudo isso.

Como se preparou para chegar ao ápice da carreira? O que o Marcelo Grohe tem de diferente em relação a ele mesmo?
Estou muito mais maduro, calejado. Nesse tempo que passei dentro do clube, tive todas experiências possíveis. Momentos bons, outros difíceis, vitórias, derrotas. Talvez por eu ser da casa, por todo esse tempo sem título, é possível que tenha recaído uma pressão grande sobre mim. Foi um tempo de preparação, de aprendizagem, de amadurecimento, muitas cicatrizes para estar preparado para essa batalha.

Contra o Barcelona-EQU, na semifinal, e diante do próprio Lanús, na final, foram duas defesas que poderiam ter alterado a história do Grêmio na Libertadores. Como encara isso?
Foram defesas que poderiam ter alterado a história. Dois momentos importantes. Em Guayaquil seria o 2 a 1, contra um time bom, com jogadores rápidos do Barcelona-EQU. Certamente sofreríamos uma pressão muito grande. Quando marcamos o terceiro, praticamente definimos a semifinal. E na final, a cabeçada do Braghieri impediu que o Lanús saísse na frente na Arena. Se tivessem saído na frente, pela qualidade, certamente iriam trazer uma pressão muito grande para nós. Foram momentos importantes em que pude contribuir. Mas o mérito é de todos.

“Seleção é um sonho que vive dentro de mim, não há como negar. Faz com que a gente cresça, trabalhe com objetivos, mas entendo que outros goleiros convocados são merecedores”

Você sonha em voltar a ser convocado para a Seleção?
Seleção é um sonho que que vive dentro de mim, não há como negar. Faz com que a gente cresça, trabalhe com objetivos, mas entendo que outros goleiros convocados são merecedores. O futuro a Deus pertence, sigo fazendo meu trabalho com humildade, da mesma forma.

Já pensou em como seria segurar o Real Madrid numa final de Mundial?
Não podemos esquecer que há uma semifinal ainda. É um passo importante chegar à final. Mas claro, nós sabemos que se chegarmos à final, provavelmente para enfrentar o Real, o favoritismo será todo deles, pelo nível, qualidade. Não custa sonhar em ser campeão, temos que focar nessa conquista.

Marcelo Grohe com o filho Pietro na Arena (Foto: Diego Guichard)

Qual a defesa mais difícil, a sua contra o Barcelona-EQU ou a do Banks na Copa de 70?
Acho que, pela cabeçada do Pelé, fico com a do Banks. Foi bacana, era Copa do Mundo. Fico com a dele.

As suas foram em semifinal e final de Libertadores…
Fico com a minha então, que tá tudo certo (risos).



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