Por mais de quatro décadas, Lanús era uma cidade da Grande Buenos Aires conhecida como a terra natal de Diego Armando Maradona. Foi lá que um dos gênios do futebol nasceu, a 30 de outubro de 1960. Os destinos da vida levaram Don Diego a se tornar ídolo do Boca Juniors, cidadão do mundo e não jogar mais do que apenas uma partida beneficente, em 2008, pelo Club Atlético Lanús, instituição com 102 anos de história, famosa apenas nos últimos dez, quando começou a obter suas maiores façanhas.

São as façanhas recentes que agitam Lanús e o clube, que se orgulham de uma frase, pintada em seu estádio e repetida como mantra pelos torcedores e dirigentes: “el club de barrio más grande del mundo” (o maior clube de bairro do mundo). O orgulho cresce justamente no momento em que a equipe disputa com o brasileiro Grêmio o título de campeão da América do Sul. Quarta-feira, o Lanús precisa vencer o jogo de volta da final por dois gols de diferença para ganhar pela primeira vez em sua história a Copa Libertadores. Triunfo por um gol de vantagem leva a decisão para os pênaltis.

– Não queremos mudar de patamar. Mesmo com grandes conquistas, continuaremos nos orgulhando de ser o maior clube de bairro do mundo – disse ao GloboEsporte.com o presidente do Lanús, Nicolás Russo.

A sede social do Club Atlético Lanús, bastante modesta (Foto: Jorge Luiz Rodrigues)

Desde 2007, o patamar do Lanús, no entanto, elevou-se com base em suor, conquistas e administração. Nesses últimos dez anos, o clube ganhou dois títulos argentinos (2007 e 2016) e uma Copa Sul-Americana (2013). Suas finanças estão entre as melhores de clubes do país.

A chegada à final da Libertadores mexeu com Lanús em todos os sentidos. Desde a épica vitória por 4 a 2 sobre o gigante River Plate, no jogo de volta da semifinal, na noite de 31 de outubro, La Fortaleza, como é conhecido o Estádio Ciudad de Lanús Néstor Díaz Pérez, vem se preparando para outra jornada que tem tudo para se tornar inesquecível.

– Queremos desfrutar desse momento, que é único. Somos um clube em que todo mundo se ajuda, cada um dá um pouco que se transforma em muito. Eu mesmo não cobro o que deveria cobrar por meu trabalho. Todo mundo está mergulhado na ambição de ganhar um título de Libertadores, que seria uma grande marca de nossa ascensão – contou ao GloboEsporte.com o chefe de imprensa do Lanús, Óscar Cusano, pouco antes da partida pelo Campeonato Argentino no último dia 4, em que o time reserva perdeu para o Olimpo de Baía Blanca por 2 a 0, em La Fortaleza.

A união a que se refere Óscar Cusano não é de agora. Vem de antes do início do sucesso do Lanús. Entre 1990 e 2003, mesmo quando já não era mais o presidente do Lanús, Néstor Díaz Pérez liderou o movimento de 13 anos para a transformação de um estádio de madeira em um dos nove maiores do futebol argentino, com cerca de 47 mil lugares e todo de cimento.

– Remodelamos este estádio sem que o clube gastasse praticamente nada. Pedimos doações de cimento, areia e pedra. Mais que orgulho, sentimos alegria por todo isso. Ver que é possível transformar sonhos em realidade – contou Néstor Díaz Pérez, sentado em uma das arquibancadas do estádio, que leva seu nome, homenagem à obstinação do homem que levou ao sucesso da empreitada à qual abraçou.

O Estádio Néstor Díaz Pérez, conhecido como La Fortaleza, será palco da decisão da Libertadores (Foto: Jorge Luiz Rodrigues)

O resultado do crescimento é que a torcida do Lanús se renova. Na tarde do sábado, 4 de novembro, posterior à épica vitória sobre o River Plate, nem mesmo a escalação do time reserva, tampouco o horário inusitado das 14 horas para a bola rolar, por força do contrato com a TV, desestimularam mais de 10 mil torcedores, que foram até La Fortaleza e acabaram vendo a derrota por 2 a 0 para o Olimpo. O “Orgullo Granate” (Orgulho Grená) estava por toda parte, em forma de camisas, bandeiras, bonés, faixas e sentimento.

– Venho enquanto tiver saúde para vir com minhas próprias pernas. Sábado à tarde, depois do almoço, é melhor do que à noite. Mas não deixarei de vir na noite de 29 de novembro, quando jogaremos a final contra o Grêmio – sentenciou, todo paramentado, seu José Arias, de 76 anos, torcedor do Lanús, segundo ele, desde quando chorou ao sair da barriga da mãe.

Na tribuna à direita do setor de imprensa, atrás de um dos gols, fica, talvez, a mais inflamada torcida do Lanús. “La Barra 14” não parou de incentivar o time reserva um só momento, mesmo na derrota para o Olimpo. Nada de vaias. Nem no apito final. “Se siente poderoso estando acá…” (Sente-se poderoso estando aqui…), mostrava uma das inúmeras faixas estendidas pelos torcedores nas arquibancadas de La Fortaleza, refletindo o que o estádio representa para os torcedores.

– O Lanús tem uma equipe que respeita a bola. Muito se fala em Braghieri, mas, para mim, Acosta é o craque. Tem um esquema sólido de jogar no 4-5-1 – analisou Jorge Barraza, de 62 anos, um dos grandes jornalistas e historiadores do futebol argentino, ex-repórter e editor da revista “El Gráfico”, hoje também colunista dos jornais “El Tiempo” (Colômbia), “El Universo” (Equador), “El Universo” (Peru) e “La Razón” (Bolívia). – Será uma partida muito interessante de ver jogar em La Fortaleza. O Lanús sabe fazer valer o mando de campo. Terá um adversário que se mostra forte fora de casa nesta competição – acrescentou o autor do livro “História da Copa Libertadores”, entre outros.

Lanús se orgulha de ser o

Nem mesmo a derrota por 1 a 0, em Porto Alegre, na última quarta-feira, no jogo de ida da final contra o Grêmio, arrefeceu os ânimos. O “Orgulho Grená” só faz aumentar. Postes de luz e paredes de casas têm pinturas na cor do clube, principalmente nas cercanias das ruas Arias e Guidi, esta última, nome de um dos grandes jogadores da história do Lanús. Na caminhada da estação de trem urbano da Ferrocarril Roca, que leva até o estádio, são 20 minutos respirando momentos do Club Atlético Lanús, em meio ao comércio da 9 de Julho, a principal via de compras e com nome homônimo ao da famosa rua da vizinha Buenos Aires, distante 12 quilômetros.

Antes de dobrar à direita na esquina com Arias, passa-se pela sede social do Lanús, com restaurante e ginásio, para a prática de outros esportes. No estádio, distante 500 metros dali, embaixo da mais nova das tribunas, ampliada entre 2012 e 2014, há uma loja com produtos oficiais do clube, os vestiários, sala de imprensa e um setor administrativo. Sob a tribuna descoberta Alejandro Solito (batizada assim em homenagem a outro ex-jogador do clube) funciona um alojamento para 60 jovens talentos trazidos de várias partes da Argentina.

– Fizemos tudo certo até aqui. Da venda de ingressos até a distribuição das cabines de rádio e TV. Agora, a Conmebol quer tomar conta de tudo. Se quiserem cuidar de tudo, podem me deixar desfrutar do jogo com minha família – disse, em tom irônico, o chefe de imprensa Óscar Cusano, sobre as exigências da Conmebol, para, em seguida, voltar ao tom normal de alegria. – Temos, por hábito, receber bem os visitantes, sem deixar de lado a nossa paixão. Você está vendo aqui. Será muito mais intenso no dia 29 – completou.

Se o Lanús vencer em La Fortaleza, poderemos ter a repetição de cenas como a que rodou o mundo a partir daquela noite de 31 de outubro, quando o torcedor Ricardo Venejú tirou a roupa e ficou só de cueca branca, de pé, junto ao fosso que separa uma das tribunas do gramado. Veneju fez isso para cumprir a promessa feita ao filho, no intervalo do jogo com o River Plate, quando o Lanús perdia por 2 a 1.

– O futebol argentino envolve muita paixão. A vitória do Lanús seria um dos mais lindos dias da nossa história futebolística – sentenciou o jornalista Jorge Barraza, dando o tom do que a próxima quarta-feira pode nos reservar.



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