Romildo Bolzan Jr. conduziu o Grêmio a uma das eras mais vitoriosas de sua história nos últimos anos, mas seu semblante na conversa por videoconferência é sisudo. Estampa a gravidade do cenário projetado pelo presidente gremista para o futebol diante dos impactos financeiros e da imprevisibilidade para o futuro causados pela pandemia do coronavírus.

Em entrevista ao GloboEsporte.com, o mandatário elenca incertezas atrás de incertezas sobre o calendário e a volta do Campeonato Gaúcho, dois tópicos que parecem cada vez mais distantes da realidade. O discurso é bem mais assertivo quando as dificuldades financeiras entram em pauta.

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio, em entrevista ao GloboEsporte.com — Foto: Reprodução

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio, em entrevista ao GloboEsporte.com — Foto: Reprodução

Advogado de formação, político de carreira e presidente atuante nos bastidores, Romildo projeta a falência do futebol brasileiro e sul-americano sem a retomada do futebol. O mandatário quer evitar demissões, mas também é sincero à medida que os dias de paralisação avançam: o Grêmio já não tem de onde tirar novos recursos.

Nas linhas a seguir, o presidente também defende a decisão pela volta dos treinos, tomada com base em parâmetros científicos e não em “ideologias políticas”. Sob o escudo de um rígido protocolo médico e de um decreto municipal, o Tricolor e o seu maior rival, Inter, são os dois únicos clubes do Brasileirão que já retomaram atividades em seus centros de treinamento.

Confira a entrevista:

GloboEsporte.com – A reunião com a FGF traz que perspectivas nas conversas sobre o Gauchão?

Romildo Bolzan: Não há previsão de nada, os fatos são avaliados e decididos praticamente dia a dia. Terminamos a reunião de modo inconclusivo, e esse modo inconclusivo significou que semana que vem vamos nos encontrar de novo para ver se vai ter fato novo. Mas basicamente vamos cumprir o que foi determinado, não temos decisão do que será a continuação do campeonato.

Nesta sexta feira existe a expectativa que o futebol esteja contemplado no decreto estadual.

Ele ficou de avaliar uma situação por zonas do estado, onde existe mais possibilidade de existir jogos com menos riscos. A única situação que ficou aberta seria essa. Se fosse a situação normal de observar jogos onde os mandantes têm praça, acho que efetivamente não andará. O que ficou para ser observado é que se tiver jogos, poderão ser jogos que observarão uma praça menos atingida, mais segura, que dê possibilidade de isolamento mais seguro para os envolvidos. Só isso que ficou pendente, não sei se vai avançar neste sentido.

“Não creio que (a volta do Gauchão) saia no mês de maio e nem sei se sai no mês de junho, por conta do cenário nacional que está se criando cada vez mais agudo”.

Se fala da possibilidade diminuir as sedes do Gauchão justamente por conta da sinalização do decreto do governo estadual.

Jogar onde a situação está mais tranquila, seria isso basicamente. Os mandantes não jogariam em seus estádios por conta das restrições que cada região possa ter. A única coisa certa de tudo isso é que ocorrerá no prazo que tiver. Será um protocolo reduzido de pessoas e sem público. Mas não creio que isso saia tão rapidamente assim.

E na reunião também ficou sem prazo determinado para isso, depende das autoridades. O Grêmio voltou a treinar nessa semana. Isso se mantém?

Vamos treinar talvez 5% do que treinamos. Vamos ter situações muito seguras de todo o procedimento. Futebol é uma cultura própria. Se fica 40, 50 dias (parado), desmancha uma perspectiva de ter foco no nosso futebol. Não que isso seja a qualquer preço, nada disso. Mas o monitoramento, o controle, a orientação, segurança alimentar, médica, de um jogador de alto rendimento, é fundamental. Muito antes da questão de treinamento, está em jogo também a capacidade de acompanhamento dos jogadores, das famílias, da avaliação emocional, clínica, física.

É mais amplo que a situação de ficar dizendo que “agora vai ter treino”. Só tem treino e treino reduzidíssimo. Estamos muito mais preocupados com a mobilização permanente nos cuidados dos atletas do que a situação de treinar em alta intensidade. Só coloco isso para tirar um pouco da forma que as coisas são colocadas, que parece que voltaremos tudo para a vida normal. Muito longe disso. Os clubes estão autorizados a fazer atividades físicas. Mas quem manda nesta situação de jogos não são os clubes, são as autoridades sanitárias.

Grêmio retomou treinos com distanciamento nesta quinta-feira — Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Grêmio retomou treinos com distanciamento nesta quinta-feira — Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Este assunto tem causado muitas opiniões, presidente. Como o senhor vê isso? Muita gente diz que é arriscado voltar agora.

Eu vejo duas situações. Primeiro, o contexto ideológico e político que tomou. Para nós, não é questão ideológica e política. Futebol é um negócio. Estamos retomando uma rotina mínima. Estamos muito longe de preparar o jogador para o alto rendimento. Essas críticas estão voltadas muito mais para um viés ideológico, lamentavelmente. Tem que ser examinado o que Grêmio e Inter estão fazendo também dentro de um contexto científico e se as nossas ações estão corretas sob essa ótica.

“Gostaríamos que examinássemos também o conteúdo científico destas decisões que estamos tomando, Grêmio e Inter. Que, aliás, trabalharam em conjunto para fazer os protocolos. Acho que estas coisas não podem ser politizadas e extremadas”

Na questão da divisão estadual pelas bandeiras, a única maneira de contornar isso é com sedes reduzidas ou tem outras hipóteses?

Não vejo outra hipótese. Não estou dizendo que vai acontecer. Acho que a única possibilidade de daqui um mês, dois meses jogar, seria neste contexto, de melhoria do controle da epidemia. Os indicadores e as autoridades sanitárias dizerem que estamos no controle, que a curva esteja descendente.

No cenário nacional, é bem mais complicado. E no sul-americano, mais complicado ainda. No nacional, existem 10 times que disputam o campeonato de Rio de Janeiro e São Paulo, e ali não teremos solução nos próximos, três, quatro meses talvez. No ambiente sul-americano, tem países que fecharam as fronteiras até setembro. Ali não vejo condições de locomoção, transporte, não existem condições estruturais de logística. O futebol brasileiro e o futebol sul-americano estão extremamente comprometidos.

A Libertadores então é possível que acabe fora do campo?

Eu não vejo neste momento nenhuma perspectiva. A Argentina já declarou que até setembro nada acontece. Só em setembro teremos, se mantiverem o cronograma. Tem países com situação muito pior que a própria argentina. Não vejo possibilidade de concluir o calendário neste ano. Acho que poderemos recomeçar não sei quando este ano e permanecer jogando no ano que vem. E os calendários passados para 2021.

Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio — Foto: Eduardo Moura

Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio — Foto: Eduardo Moura

Mas aí há um reflexo no calendário do ano que vem.

No calendário do ano que vem e também seria determinante para basicamente a falência dos clubes brasileiros. Não tem perspectiva de renda a partir disso, e dessa forma de preservação, que é legítima e corretíssima, vai ser a quebra dos clubes brasileiros e sul-americanos.

“(Não voltar com os campeonatos nacionais e sul-americanos) Seria determinante para basicamente a falência dos clubes brasileiros. Não tem perspectiva de renda a partir disso. Vai ser a quebra dos clubes brasileiros e sul-americanos

Já que o senhor falou em falência dos clubes. Quanto tempo mais dá para aguentar sem jogos?

Vamos revisar o plano de três meses porque está basicamente impossível mantê-lo dentro do contexto que está se criando. Na verdade, não existe muito mais fôlego. No momento que houve essa repactuação no contrato de televisão, estamos deixando de arrecadar no período R$ 16 milhões que estávamos contando. Se não recebermos, são R$ 16 milhões a menos que vamos ter. Estávamos projetando R$ 30 milhões de não recebimentos importantes, adequamos o fluxo de caixa para isso, acrescente-se agora mais R$ 16 milhões. Estamos trabalhando agora com R$ 46 milhões, R$ 48 milhões que deixaremos de receber.

Neste momento, alguns clubes no Brasil têm demitido funcionários. A diretriz do plano do Grêmio é manter o seu quadro. Será possível manter isso?

Estamos neste cenário de dois meses para cumprir os impactos das suspensões dos contratos de trabalho, podemos também suspender as atividades da base, na estrutura do futebol, futebol feminino, reduzimos de maneira muito forte os salários a partir de uma carga horária momentaneamente. Nosso viés efetivamente é esse, de manter o quadro porque a situação volta a uma normalidade. Vamos ter que arrumar outras formas, não passa por demissões neste momento. Mas não é uma situação que a gente possa deixar de demitir por conta da nossa sobrevivência.

“O Grêmio já não tem mais de onde tirar. Tudo aquilo que era possível fazer, está feito. A suspensão dos contratos demoram dois meses, e depois? O cenário é aterrador, e não vejo nos dois meses nenhuma perspectiva de retorno no cenário normal”

Que alternativas seriam essas? Empréstimos?

Vamos ver até onde vai nossa capacidade de endividamento para conseguir manter nossas operações. O Grêmio vai ter que recorrer a situações bancárias para passar por isso porque não temos o giro das lojas, em queda no quadro social, contratos de TV que vão baixar. Que tentamos de uma maneira evitar a evasão, pedindo a solidariedade no momento, é o momento de estarmos juntos, não tem outra solução.

Não estamos em uma situação de redução das prestações porque também sabemos que o torcedor não quer asfixiar o clube. Se ele puder contribuir desta maneira, estamos pedindo, porque as rendas são pequenas. Não temos margem de buscar novas rendas neste momento. A única renda que poderíamos ter excepcional é a venda de jogador, que não tem negócios para avaliar. Vamos colocar as coisas no devido lugar, estamos contando com a solidariedade e mais adiante trabalhamos algumas vantagens e poderão ter outras se o cenário der uma melhorada. Mas no momento é isso porque lamentavelmente a nossa situação de renda passa por um momento muito ruim.

Romildo Bolzan com Renato Gaúcho — Foto: Grêmio, divulgação

Romildo Bolzan com Renato Gaúcho — Foto: Grêmio, divulgação

A queda nas receitas acelera o clube a aceitar alguma proposta que ocorra quando tudo voltar?

O Grêmio vai aceitar proposta que não seja agressiva, vilipendiosa ao clube. É bom que se diga, 40 milhões de euros hoje pode ser 28 milhões de euros por conta do câmbio. Explodiu, está lá em cima. Se transformar em reais, que é o que importa, diminui o valor nominalmente, mas o valor é praticamente o mesmo. O raciocínio tem que ser colocado na hora da negociação.

O Renato permaneceu no Rio de Janeiro.

O Renato tem uma situação debatida com o seu médico do ponto de vista clínico. As conexões são difíceis, não consegue chegar diretamente a Porto Alegre, tem que fazer ponte aérea. O médico achou prudente não correr esse risco, se exporia a um ambiente de diversos contatos. Como estamos na fase preliminar de testes e que não envolvem contatos, fica claro que é melhor preservar a situação dele. Não é porque não queria se reapresentar, é recomendação médica e o clube aceitou a justificativa sem problema nenhum.

A necessidade de ele estar aqui também diminui por questões físicas.

O (auxiliar) Alexandre (Mendes) está trabalhando, não vamos ter treino com bola no sentido de contato.



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