Esperança. Essa é a palavra que tem resumido o momento da vida de Lucas Leiva. Longe das atividades no Grêmio após probelma cardíaco, o jogador tem aproveitado o período para se dedicar à família e, assim, ver o lado bom das coisas. Junto a isso, mantém confiança para, em março, voltar a fazer aquilo que lhe dá prazer.

Pouco mais de um mês depois do Grêmio divulgar a notícia da alteração nos exames de Lucas Leiva, o meia falou com exclusividade pela primeira vez sobre o período afastado. O jogador se diz tranquilo, vivendo um dia de cada vez, convivendo no clube, mas aproveitando o tempo com a família e amigos.

Em março, Leiva fará novos exames e se não for constatado alterações, poderá ser reintegrado. Enquanto isso, coube ao jogador fazer repouso, ser paciente e acreditar que dias melhores virão. Lucas conta que resolveu passar a ver o lado bom da vida para aproveitar o que esse momento pode lhe ensinar.

– Esperança é uma palavra que tenho usado bastante, fé e gratidão. Acho que temos que ser agradecidos e sempre olhar pelo lado bom das coisas. Gratidão por ter descoberto, porque talvez se eu continuasse poderia ter se tornado algo grave, algo que eu tenho certeza que não é. Essas palavras tenho usado bastante na minha vida – afirma o volante.

Fui pego de surpresa. É muito estranho, porque você dorme bem e acorda com problema sem nem ter um sintoma.

— Lucas Leiva, volante do Grêmio

Lucas Leiva fala com exclusividade ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Lucas Leiva fala com exclusividade ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Durante a entrevista, o jogador contou que nas férias treinou normalmente, jogou futebol com os amigos e nunca sentiu nada diferente. Após terminar a temporada passada com um gol simbólico, foi surpreendido. Além disso, Lucas conta também bastidores da conversa com seu amigo Luis Suárez, fala sobre a relação com Renato e expectativa para o time em 2023.

Confira a entrevista na íntegra:

ge: Como você está Lucas?

Lucas Leiva: Agora eu estou tranquilo. Já tem um mês desde os exames. Fui pego de surpresa. É muito estranho, você dorme bem e acorda com problema, sem nem um tipo de sintoma. Nunca tive. Treinei minhas férias normalmente. E teve esse momento que eu recebi a notícia e tive que absorver, fazer todos os exames e agora estou num período tranquilo, pensando no dia a dia, porque tenho total esperança e creio muito que em março as coisas vão voltar ao normal e vou poder retomar.

Realmente foi uma surpresa para todos. Você teve poucos problemas físicos durante a carreira e agora precisou ficar afastado.

Nem chamo esse problema de lesão, porque eu acho que são coisas que podem acontecer na vida do jogador. Não sou o primeiro, não serei o último, e tem muita gente que volta à normalidade. A única coisa é o tempo. A gente tem que dar o tempo necessário que os médicos pediram. Lesão eu tive algumas, já tive ligamento cruzado, que é o mais longo, mas é um momento diferente. Como eu falei, eu nunca tive nenhum sintoma, sempre tive 100% e por isso eu tenho tanta esperança mesmo que é algo passageiro e que eu possa voltar a atuar de março em diante.

Recupera um pouco do passo a passo, quando recebeu a notícia, realizou os exames até ficar afastado?

Os exames normais que todos os atletas devem fazer e teve alteração em um dos exames. Então eu tive que fazer outros exames pra confirmarem e descartar outras hipóteses, que foram descartadas. Em conjunto com o departamento médico do Grêmio e os especialistas de cardiologia, acharam melhor eu ter essa pausa por dois a três meses. Isso pode acontecer em alguns atletas, já aconteceu, e esse período de descanso tem grande possibilidade de voltar tudo ao normal. Não tem um diagnóstico completo. Tem um diagnóstico inicial, que requer que eu fique em repouso e depois eu vou refazer os exames e saber exatamente se é grave, se não é, se eu vou puder atuar, se não vou. Nesse momento realmente é descanso. Estou vindo no CT diariamente, nos finais de semana pedi autorização pra poder curtir a família, porque é algo que a gente não consegue na nossa vida de atleta. Então já que eu não estou em treinamento, nos finais de semana eu estou escapando e curtindo um pouco o verão, que também faziam muitos anos que eu não aproveitava.

Lucas Leiva, volante do Grêmio, em entrevista ao ge  — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

Lucas Leiva, volante do Grêmio, em entrevista ao ge — Foto: João Victor Teixeira/ge.globo

O tratamento então é repouso?

O tratamento é o repouso e estou trabalhando bastante a cabeça nesse momento, que vai ajudar bastante. Então eu tenho trabalhado bastante isso.

Detalha um pouco mais como tem sido a sua rotina nesse último mês.

Eu tenho vindo durante a semana, normalmente um período, quando tem os treinamentos. Tento assistir aos treinos, converso com o pessoal. Como eu não posso treinar, tenho tentado estar presente. Obviamente que quando tiver jogos eu estarei presente, mas durante os finais de semana eu tenho aproveitado para estar com a família. Uma possibilidade de ver meu filho jogar, até viajei com meu filho para um torneio com o Grêmio, algo que eu também nunca fiz. Levantou taça. Estou tentando olhar pelo lado bom e curtir talvez algumas coisas que eu não curtia antes. E tenho a esperança que em março essa regalia acabe.

Como está sua cabeça com tudo isso? Acima de um atleta, tem um ser humano por trás disso tudo. E como foi contar para seus filhos esse momento?

Eu tenho trabalhado muito a questão mental. É fundamental para a minha recuperação, principalmente nesse período que estou afastado. Meus filhos entenderam a situação. A primeira pergunta deles foi se eu tinha risco de vida. Mas eles ficaram tranquilos, porque não tenho risco. Estou tentando olhar para o lado positivo. Estou em Porto Alegre, perto da família, perto dos amigos. O Grêmio está me dando todo respaldo. É algo que não posso nem reclamar, porque estou onde eu queria, na cidade que eu gosto, perto dos amigos, da família. Percalços acontecem. A gente tem que se tentar tirar de letra e se preparar para o futuro e pensar que ali na frente as coisas vão se encaixar.

Pode-se dizer que sua família tem sido, além de suporte, também um refúgio para lidar com esse momento?

Claro, quando eu falo família não digo somente aquele circulo pequeno. Tenho muitos amigos que se tornam família também, que estão presente diariamente com essas pessoas e dão força. É um momento que as crianças estão de férias, então também tenho mais tempo. Estou tentando tirar de letra. Não é fácil, como eu falei, é uma mudança muito brusca na rotina. Nós os atletas às vezes somos um pouco como máquina assim, e quando quebra uma peça a gente da uma desconsertada, mas depois volta pro trilho. E é isso que aconteceu comigo. Na primeira semana foi mais difícil.

Como tem sido o suporte do Grêmio também para esse momento?

Está sendo 100%. O Paulo, Antônio, o presidente Guerra, todo mundo da diretoria, o Renato, todos me deixaram super à vontade. “Lucas, tu quer vir todos os dias? Tu quer vir nos dois turnos? Tu quer participar?”. Eles falaram: “o importante agora é a tua cabeça, ver como você está”. Aos poucos estou me adaptando, me entendendo e março está logo ali. O Grêmio não é somente a instituição, tem muitas pessoas por trás da instituição que tratam realmente como é o ser humano e eu acho que isso aí sempre tiveram muito próximos de mim. Me sinto com um respaldo enorme do clube.

Você não sente absolutamente nada? E não pode fazer nada? Nenhum tipo de esforço?

Absolutamente nada. Neste momento os especialistas optaram pelo meu destreinamento. Então estou fazendo o que eles pediram, porque como pode ser algo passageiro, para ter uma eficácia maior no tratamento, eles preferem que eu faça esse destreinamento. E aí, posteriormente, fazendo os exames complementares e repetindo alguns dos exames, aí ver se esse destreinamento ajudou a mudar a alteração ou não. Estou seguindo as ordens médicas.

Dentro desse destreinamento a alimentação segue normal?

Não pode mais comer como comia antes. Continua com a mesma fome e gastando menos calorias. Isso o pessoal da nutrição ajustou meu cardápio. Mas é difícil, porque a gente gosta muito de carne (risos). Ainda mais com um pouco de folga, no fim de semana, não tem jeito. Eu pelo menos gosto muito. Mas a gente vai cuidando porque realmente tem que cuidar. Obviamente vai perder massa muscular, isso é inevitável, e em relação a isso é basicamente esses ajustes.

E tem tomado alguma medicação?

Medicação não tenho tomado. Estou tranquilo. Eu não sinto nada, isso é algo positivo, porque se fosse algo mais grave acredito quem em algum sintoma eu teria sentido e eu nunca tive nada. Isso me dá esperança de que isso possa ser passageiro.

É um otimismo com um fundo de medo também?

Não é nem medo, é encarar a realidade. A realidade existe. Se estivesse tudo 100% eu não estaria aqui falando disso. Mas como eu falei. Tenho esperança e fé que isso vai ser passageiro. Obviamente que o risco existe. É inevitável e eu tenho trabalhado nisso. Mas pensando muito positivo que ali na frente vai dar tudo certo.

Ao longo dessa conversa você usou muito um termo específico. A palavra deste momento da tua vida é “esperança”?

Acho que sim. Esperança é uma palavra que tenho usado bastante, fé e gratidão. Acho que temos que ser agradecidos e sempre olhar pelo lado bom das coisas. Gratidão por ter descoberto, porque talvez se eu continuasse poderia ter se tornado algo grave, algo que eu tenho certeza que não é. Então essas palavras tenho usado bastante na minha vida para continuar seguindo. E o futuro a gente não tem como imaginar muito. Temos que fazer as coisas agora, que ali na frente, de alguma forma as coisas vão se encaixar.

Dentro dessa rede de apoio, já consegue imaginar voltando, o dia que você mais pisar de novo na Arena?

Sem dúvida. Esse pensamento é diário. Vir aqui no CT todos os dias, ir na Arena, ver meus companheiros. Como eu falei, não é uma lesão, mas me deixa afastado, então encaramos como se fosse. É a mesma coisa. O Jhonata Robert que está tratando o joelho também tem a mesma visão de voltar aos treinamentos, voltar a jogar, fazer gol, vestir a camisa novamente do Grêmio. Acho que isso mantém vivo na minha cabeça, tenho certeza que vai dar tudo certo.

Quais foram as palavras de alguém, ou em uma conversa específica, que mais marcou durante esse período?

Acho que a palavra de todo mundo é “vai dar tudo certo!”. Acho que isso é o que fica mais marcado. Mas o carinho das pessoas, de dentro do clube, de fora. Como eu falei, tem sido uma chuva de boas energias que tem me ajudado a continuar e esse carinho eu recebo diariamente, que só me dá tranquilidade pra continuar no processo. Não precisa apurar nada. Tem que ser dia a dia. Tem que pensar em um presente. E ter essa oportunidade de estar vivendo de maneira diferente o clube, algo que eu tanto queria. Estou tentando valorizar isso também.

Renato Lucas Leiva Renato — Foto: Lucas Uebel/Grêmio Divulgação

Como tem sido as conversas com o Renato também?

O Renato foi uma grande surpresa pra mim. Eu não conhecia o Renato. Nunca tinha trabalhado com ele, só escutado falar. O Renato é um cara que talvez pro externo aparenta ser de um jeito, mas no interno, não digo que é diferente, mas tem muitas coisas positivas. Minha relação com ele foi muito forte desde o início. Ele é um cara muito direto. Muito sério e por isso que eu me dei bem com ele. Nesse momento nem conversamos nada em relação ao futuro. Ele também está focado nos atletas que estão disponíveis e chegaram grandes atletas de meio-campo que a gente precisa ajudar na adaptação. Quando aconteceu ele teve na minha casa para conversar comigo e sempre teve do meu lado me dando apoio e está me esperando. Sei que tenho um lugar dentro desse plantel.

Renato é quem te coloca mais para frente ano passado, tanto que você é importante fazendo gols.

Ele teve uma visão que nem eu esperava. Acabei ajudando o time de uma maneira mais eficaz em outra posição. Naquele momento era o que ele precisava e onde ele me via encaixando melhor com os jogadores e o time que a gente tinha. Foi mérito dele exergar isso e eu sempre acredite muito nos meus treinadores. Sempre fiz o que eles pediram. Foi uma das características minha na carreira e tentei fazer o meu melhor dentro de campo.

Quando soube da possibilidade do Suárez vir para o Grêmio e como foi a conversa com ele?

Eu e o Luis tivemos 4 ou 5 anos juntos e tivemos uma relação muito próxima lá no Liverpool. Nossos filhos nasceram no mesmo lugar. Nossas mulheres quase tiveram filhos na mesma época, então foi uma amizade muito legal. Claro que depois ele foi para o Barcelona e o contato se distancia. Quando começou a voltar a situação o Luis mesmo me chamou para pedir informações mais gerais. A estrutura do clube ele já conhecia, porque teve aqui com a seleção uruguaia. Mas foi para entender um pouco. O medo do Brasil existe, quando se fala no Brasil a segurança é o que mais se teme. Expliquei que Porto Alegre iria receber ele muito bem, que ele tinha a cara do Grêmio por ser uruguaio.

Eu tentei ser o mais assertivo para dar essa tranquilidade para ele tomar a decisão. A decisão foi completamente dele, tomou com a família e o clube fez todo esforço para trazer. Um jogador do nível dele, ninguém espera que possa vir para o Brasil. Se é brasileiro é até mais normal. Eu já sabia que ele ia chegar e faria diferença. Pelo perfil dele. Perfil de atleta, de ser humano. Acho que isso é importante e mostra o que ele fez na carreira. A qualidade dele a gente pode ficar aqui até amanhã conversando e falando dos títulos, dos gols. Mas aquela motivação que ele tem, com a idade que tem. Sei porque tenho a mesma idade que ele. É isso que nos move. O desafio. Ele tem mostrado que veio para conquistar coisas importantes e deixar um legado que ele deixou por onde passou .

FUTEBOL - Vida em Liverpool  LUCAS LEIVA - Ano Novo — Foto: Arquivo Pessoal

FUTEBOL – Vida em Liverpool LUCAS LEIVA – Ano Novo — Foto: Arquivo Pessoal

Para fora a gente enxerga o ídolo e goleador que ele é, mas fala um pouco sobre o ser humano que ele tem se mostrado também.

Ele é um cara normal. Come carne, toma mate, tá com a família. Um cara normal. Obviamente é uma estrela e tem momentos que precisa se proteger, isso é normal. Mas é um cara tranquilo no dia a dia. É um cara normal, como a gente, de pele e osso e com muita qualidade, com um talento enorme. Essa característica dele de vencedor tem levado ele a conquistar coisas importantes e tenho certeza que vai colocar aqui dentro do clube também.

Jogou contra também?

Contra acho que eu não joguei. Joguei só a favor. Ainda bem né, porque desde o Ajax, mas no Liverpool ele estourou mesmo e dali só evoluiu, foi pro Barcelona e ganhou todos os títulos que ele imaginava.

Tem uma renovação no elenco de 2022 para agora. Vocês conviveu com os dois grupos. Essa mudança de cenário elevou a moral e a esperança do torcedor. Como tem acompanhado essa mudança?

Acho até injusto a gente querer comparar os elencos, porque estamos falando de dois níveis diferentes. É inevitável. O Grêmio nunca poderia ter um time como está montando, jogando a Série B. Isso é inviável. Não existe. A gente não pode faltar com respeito com as pessoas que estavam aqui no ano passado. Todos foram muito importantes para dar essa condição de estar com esse elenco hoje. Torcedor é paixão, é emocional, talvez alguns jogadores não gostam, mas aqueles que passaram tiveram sua importância, por algum motivou ou outro acabaram seguindo outros rumos, mas deixaram algo bom aqui e deram condição para esse time estar sendo montado e a qualidade aumenta. O nível de dificuldade vai ser maior.

Esse grupo é muito novo ele relação a entrosamento, mas está se criando um ambiente importante. Ontem foi uma amostra disso. E o torcedor vem junto. É inevitável né. Depois de tanto sofrimento no ano passado, daquela expectativa, esse ano com a chegada do Suárez e de outros jogadores promissores a gente tem esperança que isso continue. É uma temporada longa, a gente sabe, mas se manter unido assim tenho grande esperança que a gente possa conquistar algo importante.



Veja também