Finalista da Copa do Brasil contra o Palmeiras, o Grêmio tem convivido com cobranças, especialmente nas redes sociais, por um melhor desempenho no Campeonato Brasileiro. Mas para o volante Matheus Henrique, a maioria das críticas são injustas e não destacam o “lado positivo” de um time que até pouco tempo atrás estava também disputando a Libertadores, sustenta uma longa invencibilidade e tem um clássico Gre-Nal pela frente que pode mudar o cenário neste domingo.

Dúvida para o clássico no Beira-Rio, o volante concedeu uma entrevista exclusiva ao ge ainda antes dos jogos contra Palmeiras e Atlético-MG. Falou sobre a campanha do time na temporada, a hegemonia recente nos duelos contra o maior rival (são 11 clássicos sem derrota) e revelou que houve uma espécie de pacto para buscar a classificação para a final da Copa do Brasil depois da eliminação na Libertadores.

– Foi algo interno que fechamos o grupo e que falamos: “A semifinal a gente não joga, a gente ganha, não importa o jeito, precisamos estar na final”. A gente sabia que pela expectativa e pelo investimento que teve na temporada não poderíamos ficar fora da final – destacou.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Matheus também saiu em defesa do técnico Renato Portaluppi, por vezes criticado durante o ano de 2020, e garantiu que o treinador e o técnico nunca abriram mão do Campeonato Brasileiro, como muitos afirmam. Após empates nos dois confrontos diretos contra Palmeiras e Atlético-MG, o Tricolor encara o Gre-Nal neste domingo e o Flamengo na próxima semana para manter viva a esperança de ser campeão.

Matheus Henrique, volante do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Matheus Henrique, volante do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Confira trechos da entrevista:

ge – Você é um dos jogadores do Grêmio que mais jogou na temporada. Como tem sido esse ano de calendário maluco?
Matheus Henrique – 
Primeiro que é um privilégio atuar em todas as partidas, porque não é fácil. Tem um desgaste físico, muscular, tem a questão da viagem, às vezes pega a viagem longa, dois jogos fora de casa. Mas o professor Renato sempre pergunta para gente como estamos. Ele sempre deixa claro que não quer nenhum jogador 80% ou 70%, e sim todo mundo 100%. Então eu procuro fazer os recuperativos para conseguir dar sequência nesses jogos. Tem a questão da idade, eu e o Pepê somos jovens, então a recuperação é mais rápida. Mas como eu falei, é um privilégio e agradecer que não tive nenhuma lesão, o Pepê também não teve, e isso é bom, porque nessa pegada de jogo atrás de jogo acontecem muitas lesões musculares. Não tem muito segredo, é jogar, descansar e jogar.

Você acha que há uma cobrança acima do tom ao Grêmio, que está na final da Copa do Brasil, especialmente nos jogos do Brasileirão?
A gente também fica chateado com o empate, muitas vezes a torcida, a própria imprensa também, querem que a gente sempre ganhe. A gente também quer, mas tem que entender que do outro lado tem um adversário com seus objetivos. A gente está 15 jogos invictos no Campeonato Brasileiro (16, após o empate contra o Atlético-MG), estamos na final da Copa do Brasil, até um mês atrás a gente estava na Libertadores. Acho que tem outros lados que poderiam ser levado para o positivo. Temos confrontos diretos, então seguimos na briga.

Como você avalia até agora seu rendimento nessa temporada?
Está sendo uma temporada muito boa para mim. Eu vou disputar a primeira final de um campeonato grande, fui para a Seleção nessa temporada. Acredito que para mim está sendo bom tanto individualmente quanto coletivamente. Eu sou um dos que mais atua, recebemos muitas críticas, mas não pode se deixar levar por isso. Seu tivesse jogando tão mal o professor não estaria me escalando e não seria um dos jogadores que mais atua na temporada. Sabemos que está sendo uma temporada diferente, por tudo que aconteceu, está tudo meio confuso, mas acho que está sendo uma temporada boa. Estamos na final da Copa do Brasil, brigando pelo Brasileiro, individualmente espero terminar a temporada com título e é isso que tenho em mente.

Jean Pyerre, Matheus Henrique, Pepê e Ferreira: os guris do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Jean Pyerre, Matheus Henrique, Pepê e Ferreira: os guris do Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Essas críticas que eventualmente são feitas chegam a você?
A gente acaba olhando, porque é inevitável, estamos com celular, todo momento nas redes sociais, mas eu não me abalo com as críticas. Procuro evoluir mais para no próximo jogo melhorar. E quando não sou criticado também, não acho que sou o cara e que sou melhor, faço meu trabalho diariamente. Até Messi e Cristiano Ronaldo são criticados, imagina o Matheus Henrique quando ele está jogando. Então não posso me deixar levar pelas críticas e nem pelos elogios.

Esse ano você tem jogado com mais parceiros diferentes de meio-campo. O que muda para você?
O Lucas Silva é mais alto que eu e que o Darlan, então cada um tem seus pontos fracos e fortes. A gente busca na semana, nos treinamentos, evoluir o máximo que a gente pode. O Lucas tem um poder de marcação maior que o meu, o Darlan tem um poder de marcação maior e menor do que o do Lucas, então na hora da escolha, o professor vê o que ele quer para o jogo. Tem jogos que ele quer atacar mais, outros que quer defender. O Maicon a gente sabe da característica dele, ele é um excelente jogador, quando ele está jogando ele é o melhor com a bola, sempre tem mais passes, é um jogador que não erra. Tudo vai de acordo com o que o professor quer.

Mas em termos de funções muda pouco?
Muda pouco, porque automaticamente quem joga no meio-campo tem que correr o tempo todo. O nome já diz, volante, tem que correr, não pode parar, é diferente de outras posições. A gente tem os dados do GPS e sempre quem corre mais são os volantes e os laterais, pontas, porque o jogo não para. Mas para mim não muda muito, independente de quem joga, a gente procura sempre desempenhar um bom papel. A minha média que recebo é quase 11 km, 10,5 km por jogo. Eu, o Diogo (Barbosa) e o Pepê são sempre os GPS mais altos pela função que a gente desempenha no campo.

Na semifinal da Copa do Brasil com o São Paulo vocês se moldaram ao jogo. Dificulta mais para vocês, pela característica do time, jogar sem a bola?
A gente é um time que gosta da bola, que gosta de jogar no campo do adversário, ter pressão alta. Vínhamos de uma situação de ter sido eliminados da Libertadores, queríamos continuar na competição, mas não deu. E na sequência tivemos o jogo da Copa do Brasil. Foi algo interno que fechamos o grupo e que falamos: “A semifinal a gente não joga, a gente ganha, não importa o jeito, precisamos estar na final”. A gente sabia que pela expectativa e pelo investimento que teve na temporada não poderíamos ficar fora da final. Compramos aquilo e na final pode ter certeza que vamos trabalhar para fazer o jogo que o nosso torcedor está acostumado a ver.

A eliminação teve impacto na motivação para a Copa do Brasil?
Com certeza, a eliminação é doída, é difícil de aceitar, ainda mais da forma que foi no segundo jogo. Mas de toda situação que acontece temos que tirar o lado positivo sempre, tem que tirar uma lição, e foi isso que a gente falou, nos fechamos mais ainda e falamos: “Não sei como vamos estar na final, mas uma coisa a gente sabe, vamos competir e estaremos lá”. Porque sabemos do peso da semifinal e que não poderíamos sair de duas competições de um nível tão alto.

Essa final dá para vocês, mais jovens, a chance de seguir um caminho que foi do Luan, Everton, Jailson, Arthur, de subir, jogar e ser campeão. Como vocês encaram isso?
É quase um privilégio. A gente está no profissional, desde final de 2017 e 2018. Em 2018 a gente perdeu a Libertadores na semifinal, em 2019 também, na Copa do Brasil também. Esse ano a gente está na final. O que eu tenho para dizer é que é um orgulho poder representar dentro de campo, ajudar os companheiros. Para nós é especial, vai ser minha primeira vez, a primeira do Pepê, do Jean (Pyerre) em uma final nacional de um nível máximo. Sabemos do peso e desfrutamos ao mesmo tempo porque tem jogadores consagrados, de nome, que não disputaram final e não têm uma Copa do Brasil. A gente está tendo esse privilégio de disputar e se Deus quiser ser campeão.

Vocês também têm um Gre-Nal pela frente. Tem segredo para viver essa invencibilidade e bom momento no clássico?
É bom, é muito satisfatório porque a gente nunca quer perder nenhum jogo contra qualquer equipe, ainda mais se tratando do clássico. Porque sabemos que isso marca, é rivalidade, os dois times da cidade que estão na Série A, disputam Libertadores, Copa do Brasil. Então sabemos do peso da rivalidade. E acredito que não tenha segredo, é como fazemos todos os jogos, entrar dentro de campo, cada um corre pelo seu companheiro, quando ganhamos a gente se abraça, quando empata a gente se abraça, quando perde algum jogo também. Então o espírito é esse, o torcedor cobrando sempre a vitória, mas eles podem ter certeza que nós jogadores queremos muito mais a vitória, porque treinamos a semana toda, viajamos, estamos concentrados longe da família, não temos Natal, não temos Ano Novo, como foi esse ano, e às vezes tem torcedor que acha que a gente entra em campo para perder, eles acham que a gente não quer a vitória. Mais do que eles, a gente quer a vitória, porque passamos por tudo isso, ficamos seis horas dentro de um avião. Não é à toa que nesses quatro anos o grupo que o Grêmio vem formando é vitorioso. Queremos seguir honrando isso.O Renato é um cara nota mil. Eu sou suspeito para falar, pelo tanto de coisa que ele já fez por mim. E quando a gente vê as matérias, as críticas em cima dele, eu acho injusto, porque o tanto de tempo que ele está no comando do Grêmio e todos os anos ele chega nas competições, todo ano ele ganhou algum título.— Matheus Henrique

Sobre o peso de ter a figura do Renato no comando. O que ele trabalha com vocês para uma final?
Aí você vê os outros times, que em um ano troca de treinador oito vezes e não consegue manter o time na Série A. Ou às vezes, o time faz investimento e não consegue se classificar para Libertadores. Você tem os exemplos que acontecem no futebol, Jorge Jesus veio para o Flamengo, conquistou títulos, deixou legado, aí vem o cara que foi auxiliar do Guardiola, com jogadores de qualidade, e o cara não deu resultado. Você vai falar que a culpa é do cara? A gente não sabe o que acontece no dia a dia. Quando você vê essas críticas no Renato, o cara vai para cinco anos e todo ano ele chega, então eu acho injusto quando vemos essas críticas.

Como ele sempre fala, ninguém é maior que o Grêmio, se eu não tiver dando resultado, tenho certeza que eu vou sair e vai aparecer outro aqui. Em todos esses anos ele chega, ano passado chegou e foi campeão estadual, chegou no G-4 do Brasileiro, 2018 a mesma coisa, esse ano a mesma coisa e fora outros anos que ele saiu o campeão. O que ele passa para a gente é um espírito de vencedor que nos motiva, ele fala que tem muitos títulos, mas sempre quer mais, ele fala que quer Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Libertadores. Esse espírito de líder, vencedor, transmite para gente e tem jogos que a gente não joga, a gente tem que classificar.

Você citou as críticas injustas. Acha que pegam demais no pé do Renato?
Tem coisas que a gente vê que eu não concordo. Às vezes, não tem resultado positivo e a gente vê “fim da era de Renato” ou “o Renato só contrata jogador acima de 30 anos”. Aí se você for ver o contexto… Criticavam o Diego Souza e o cara é um dos artilheiros do Brasil com 35 anos, os cara criticam Maicon, mas quando o Maicon está dentro de campo é um dos melhores da nossa equipe, é que tem mais desempenho. Acho que isso de idade não conta, e a gente vê muito disso todo ano. O Grêmio está disputando, como ele fala para gente: “O Grêmio não vai ganhar tudo, assim como Atlético-MG ou São Paulo também não vai ganhar tudo”. São três ou quatro competições por ano, se der a gente vai ganhar, se não temos que ganhar três ou duas ou uma. É isso o pensamento.



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