O fim da Série B significa também o encerramento de um ciclo da gestão no Grêmio, que passa por eleição a presidente no sábado. O CEO do clube, Carlos Amodeo, responsável pela gestão financeira, também finaliza um ciclo de cinco anos e meio no cargo e detalhou como o Tricolor volta para a Série A. A projeço orçamentária é de um déficit de pelo menos R$ 55 milhões, mas o executivo garante um cenário estruturado e com possibilidade de investimento.

O retorno uma temporada após o rebaixamento é visto como ponto fundamental para a vida financeira do Grêmio. Com a queda, o impacto nas receitas foi na casa de R$ 200 milhões. Amodeo apontou que a travessia gremista na Série B poderia ser pior não fosse a gestão feita até então. O executivo admite o insucesso em 2021 e inclusive se desculpou com os torcedores pelo rebaixamento.

Carlos Amodeo deixará cargo de CEO do Grêmio — Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Carlos Amodeo deixará cargo de CEO do Grêmio — Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

O valor já estava previsto e apreciado pelo Conselho Deliberativo do clube gaúcho. Amodeo tem em mãos um relatório com todo o cenário do Grêmio atual e enviará para Odorico Roman e Alberto Guerra, os dois candidatos a presidente que disputam o voto dos sócios no sábado.

Amodeo esteve como executivo-geral do Grêmio desde o segundo semestre de 2017. Antes, participou da gestão como integrante da mesa do Conselho Deliberativo, como secretário, e como secretário-geral do Conselho de Administração do Tricolor.

Confira a entrevista

ge: Que balanço você faz destes cinco anos e meio como CEO do Grêmio?

Carlos Amodeo: Esse período foi intenso de aprimoramento dos processos de gestão do clube, de implantação de processos internos, melhores práticas de governança e de gestão. Um trabalho de reorganização financeira, desalavancagem do clube bastante relevante. Conquistamos vários títulos também no ponto de vista desportivo, ao longo do período aliar o protagonismo desportivo, a função principal, com a sustentabilidade da instituição. Infelizmente no segundo semestre de 2021 e este é um recorte de seis meses, tivemos um fracasso muito relevante com o descenso para a Série B. Conseguimos recompor em 2022 com o acesso a Série A.

O balanço que faço é que todo trabalho de organização, de aprimoramento da gestão e desalavancagem foi extremamente importante. Embora não tenha sido suficiente para evitar o insucesso de 2021, o lastro conquistado foi determinante para que a gente pudesse criar alicerces para o retorno.

Entre aspas, essa solidez ajudou na travessia da Série B?

O exemplo que trago é que desde 2019 quando os novos contratos de direitos de transmissão foram firmados, os rebaixados não têm mais a garantia da manutenção da receita integral. Quatro grandes foram rebaixados, Cruzeiro, Vasco, Botafogo e Grêmio. Só o Grêmio está retornando para a Série A em condição de clube associativo. Todos os demais tiveram que lançar mãos de projetos de SAF e entregar controle a investidores como subsistência. Tal o impacto financeiro. No caso do Grêmio, retornamos no primeiro ano, imediatamente e como clube associativo. Todo o lastro de gestão e fortalecimento que fizemos foi fundamental para segurar a condição.

O ponto mais importante é dizer que todo o trabalho de gestão ao longo dos últimos anos não foi suficiente para evitar o insucesso desportivo, mas foi determinante para assegurar o retorno imediato sem maiores dificuldades. Sem que a gente tivesse que aderir a um modelo de SAF e transferir nosso controle por necessidade de subistencia como os outros três grandes clubes que desceram.

Diego Cerri (esq.), executivo do Grêmio, ao lado de Amodeo — Foto: Lucas Bubols/ge.globo

Diego Cerri (esq.), executivo do Grêmio, ao lado de Amodeo — Foto: Lucas Bubols/ge.globo

Como o Grêmio está para 2023? Será possível investir?

O ano de 2023 será de reestruturação para o clube. O impacto do descenso é muito importante. Relevante. Tivemos que lançar mão do lastro que construímos nos anos anteriores para assegurar o retorno. Acredito que o Grêmio terá condições de investimento, sim, mas o montante e a forma vai depender da estratégia da nova gestão no que se refere a alocação das verbas orçamentárias do próximo ano. É um ponto bastante relevante.

Qual a participação sua na transição após a mudança de diretoria?

Tive a oportunidade de participar de duas reuniões com o presidente Romildo. Os candidatos a presidente trataram de assuntos específicos. Preparamos em termos de gestão um relatório de transição que está pronto e que faz um diagnóstico de todas as áreas do clube. Desde a estrutura da área, atribuições, número de profissionais, projetos em andamento, pontos de atenção. Ambos candidatos receberão ao longo da semana este relatório de transição que dará um norte sobre o status atual do clube. Para que possam tomar as decisões e montar estratégias e diretrizes.

A atual gestão teve anos consecutivos de superávit. Hoje o Grêmio termina como 2022?

A projeção orçamentária aprovada pelo Conselho Deliberativo aponta um déficit de R$ 55 milhões. Este ano a estratégia do Conselho de Administração foi de privilegiar o protagonismo desportivo em detrimento da estabilidade orçamentária. Eis que nossa única alternativa era fazer os investimentos necessários para assegurar o retorno sem riscos. Porque seria muito mais prejudicial ao clube a médio e longo prazo que eventualmente não alcançássemos o objetivo. Como tínhamos a queda de arrecadação muito relevante, de aproximadamente R$ 200 milhões, e não temos capacidade de reduzir as despesas na mesma proporção e velocidade. Privilegiamos fazer os investimentos para assegurar o retorno mesmo que isto circunstancialmente levasse a um déficit.

E o futuro do Amodeo, qual será? Já há propostas?

Concluo o ciclo como executivo no Grêmio com o término da gestão. Ao longo de 2021 e 2022, eu já recebi quatro ou cinco diferentes convites. Dois convites de grandes clubes em meados deste ano, mas que não eram possíveis naquele momento. Deveria assumir a função imediatamente. Naquele momento não tínhamos concluído a jornada de retorno. Meu compromisso era de concluir a gestão do Grêmio e principalmente devolver o clube para a Série A. Pretendo concluir o ciclo, devo viajar para a Copa do Mundo para acompanhar o curso da Fifa “Diploma in Club management”, teremos uma sessão em Doha, são 40 executivos de grandes clubes ao redor do mundo. Vou analisar algumas propostas e até o final do ano escolher entre os projetos aquele que seja o mais desafiador.

Rafinha cumprimento CEO Carlos Amodeo — Foto: Lucas Uebel/DVG/Grêmio

Rafinha cumprimento CEO Carlos Amodeo — Foto: Lucas Uebel/DVG/Grêmio

Uma das críticas que eventualmente ouvíamos era de que o Grêmio era “engessado”. Você entende que a realidade de fato era essa?

É a primeira vez que escuto esta crítica. O Grêmio é referência em gestão profissional no futebol brasileiro. E como toda entidade profissionalizada, tem processos internos de condução dos temas e de aprovação. Buscamos sempre atuar com a maior celeridade possível dentro da complexidade de cada tema para que possamos decidir de forma responsável. Eu vejo a gestão como ágil e profissional.

O Grêmio foi reconhecido nos últimos anos por ter gestão responsável. Como fazer com que isso se mantenha apesar das mudanças de diretoria?

É o grande desafio para todos os clubes. Ter condições de formar equipes competitivas, capazes de ter times qualificados dentro dos limites. Ao longo desses oito anos da gestão Romildo Bolzan, que faço parte de 5 anos e meio, tivemos a felcidades de conquistar 11 títulos e mantivemos o clube absolutamente equilibrado. Tendo resultados positivos desde 2016 até 2021, inclusive quando tivemos o insucesso desportivo relevante. Acredito que é através de uma visão de médio e longo prazo que se consegue ter capacidade e criatividade para fazer negócios e investimentos que se encaixem dentro da capacidade financeira.

Em determinado momento o clube esteve próximo de zerar as dívidas a curto prazo. Qual a situação atual do clube?

Em 2021, o endividamento bancário líquido, que é o montante de empréstimos e financiamentos menos o valor em caixa e de aplicações, era quase igual a zero. Era um clube absolutamente desalavancado. Em 2022, pela queda abrupta, fez com que tivesse a necessidade de alavancar novamente através do lastro que se conquistou. Hoje possui e ao final do ano possui endividamento, mas absolutamente normal da realidade dos clubes brasileiros.

Com que sentimento o Carlos Amodeo deixa o Grêmio?

Sou extremamente grato pela oportunidade que tive de liderar executivamente o Grêmio ao longo de cinco anos e meio. Com a certeza qu atuamos com o maior grau de profissionalismo e responsabilidade, mantendo valores morais e éticos de integridade e de honestidade. Além de tudo, peço desculpas ao nosso torcedor por ter feito parte enquanto dirigente de um dos três momentos mais tristes da nossa trajetória de 119 anos. O que faz com que eu parta do clube com uma cicatriz eterna enquanto torcedor do meu time do coração, mas com a certeza que atuamos dentro do melhor contexto de profissionalismo.

Amodeo conversa com o elenco durante mudança de local de jogo na Sul-Americana em 2021 — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Amodeo conversa com o elenco durante mudança de local de jogo na Sul-Americana em 2021 — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Você tem participado das conversas para a criação da liga junto ao presidente Romildo Bolzan. É possível acreditar em uma evolução no assunto em um futuro próximo?

É fundamental que os clubes consigam convergir para constituição da liga única, que possa organizar as competições Série A e Série B a partir de 2025 e possam transacionar coletivamente as propriedades. Desde direitos de transmissão a patrocínios. Acredito que a liga única é um passo irreversível e vai constituir um marco de um novo momento de desenvolvimento de agregação de valor ao futebol brasileiro. Acredito que nos próximos 90 dias o futebol brasileiro possa finalmente consolidar a liga e determinar esse relevante passo.

E isso pode gerar novos recursos para os clubes no curto prazo.

Agrega valor na venda coletiva dos direitos de transmissão a partir de 2025, o contrato atual vai até 2024. Há uma tendencia de ingresso de recursos e valorização. O mais importante é que juntamente com a liga se estabeleça de forma definitiva um contexto de fair play financeiro. Só assim conseguiremos que os recursos excedentes que serão gerados através da liga sejam destinados no fortalecimento econômico dos clubes e não exclusivamente na inflação da remuneração de atletas.



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