Arquivo Pessoal

Renato Portaluppi sempre foi um personagem do futebol brasileiro. Conhecido por ser falastrão, viveu algumas polêmicas durante a carreira. Mas os últimos quatro anos, como técnico do Grêmio, serviram para solidificar uma imagem mais madura e solidária — como o auxílio financeiro para a cirurgia de um jornalista gaúcho ou até mesmo o recolhimento de um cão abandonado próximo ao hotel em que reside em Porto Alegre.

Nos últimos dias, mais um fato veio à tona sobre as atitudes positivas do treinador gremista, que, ao saber sobre o roubo da van de uma pessoa que trabalha com logística de clubes de futebol no Rio Grande do Sul, procurou a vítima e o auxiliou na compra de um novo veículo.

Quem conta a história é Haroldo José de Moura Araújo, que conversou com a reportagem de GaúchaZH nesta terça-feira (25), enquanto aguardava a chegada da delegação do Atlético-GO no aeroporto Salgado Filho.

— Eu trabalho com logística. Busco e levo material de jogo das equipes que jogam em Porto Alegre. Basicamente, recolho material de viagem, aqueles cases, que ficam a cargo do roupeiro e do massagista do clube — disse, ao comentar suas atividades.

A paralisação das atividades do futebol, em março, por conta da pandemia de coronavírus atingiu diretamente a H.Tur, empresa de Haroldo Araújo. E quando os treinamentos recomeçaram em maio, ele passou a fazer o transporte do material de treino do Grêmio. A tarefa consistia em recolher no CT Luiz Carvalho o que foi usado e levar para uma lavanderia. Depois, fazia o caminho inverso.

Em uma determinada noite, ao deixar a van branca, placas IHI 3954, estacionada em frente ao prédio onde mora no bairro Floresta, Haroldo foi furtado.

— Eu tinha me mudado fazia pouco. Como não tinha garagem no prédio, eu a deixava (van) estacionada bem em frente à minha janela. Numa noite dessas, depois de fazer meu trabalho, fui pra casa e, quando acordei no dia seguinte, ela não estava mais lá — relata.

Foi nesse momento que as preocupações cresceram. Primeiro, era necessário buscar imagens de câmeras de segurança da região para identificar os criminosos. Depois, sem sucesso na recuperação do veículo, passou a se preocupar em como trabalhar sem sua principal ferramenta.

— Eu tenho um Clio usado que vale uns R$ 15 mil. A minha van não era nova, era modelo 1998, mas me servia muito bem. Estava conservada e era adaptada para as minhas tarefas. Aí pensei: como vou fazer ? Tenho dois filhos, aluguel, contas para pagar — diz Haroldo.

A notícia do furto se espalhou entre os amigos, e uma mobilização para ajudá-lo começou. Alguns jogadores, como os goleiros Paulo Victor, Vanderlei, Danilo Fernandes e Weverton doaram luvas e camisetas para que fossem feitas rifas. A estratégia de Araújo era arrecadar o possível, vender o velho Clio e tentar adquirir uma van para retomar o trabalho.

Ajuda de Renato

E foi então que surgiu Renato Portaluppi. O treinador do Grêmio ficou sabendo da história e, no final de uma tarde, encontrou Haroldo Araújo, que ingressava no CT Luiz Carvalho para buscar roupas que seriam levadas para a lavanderia.

— O professor Renato saía junto com o assessor de imprensa do Grêmio (Vitor Rodrigues) e, quando eu o cumprimentei, ele disse: “Escuta, foi você que teve a van roubada? Não se preocupe que eu vou te ajudar. Só tem que torcer pra mim no Gre-Nal amanhã (5 de agosto, na decisão do returno do Gauchão) — conta, emocionado.

A van que Haroldo desejava adquirir custava cerca de R$ 65 mil e ele possuía pouco mais de R$ 20 mil, contando os valores de seu carro usado e do que foi arrecadado com as rifas e de algumas doações de conhecidos.

— Eu falei com o proprietário da van e tinha uma proposta para pagar à vista e outra parcelada. Fui lá falar com ele pra acertar como faria e, quando cheguei, a van já era minha. Só sei que foi o Renato que ajudou. Sou muito grato a ele, desejo toda sorte do mundo pra ele e a família, que Deus sempre o recompense. Ele é uma pessoa iluminada — agradece Araújo.

De posse do novo veículo, ele já fez a logística do Atlético-MG na rodada passada do Brasileirão — e espera seguir a partir de agora transportando bolas, camisetas, meiões, calções e chuteiras das equipes que visitam o Rio Grande do Sul para as disputas de competições nacionais e internacionais.



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