Em meio ao segundo surto de Covid-19 no ano, o Grêmio tenta buscar explicações para as infecções pelo coronavírus. A festa do Gauchão, conquistado em 23 de maio sobre o Inter, é considerada o motivo principal para os casos positivos desde o título. Apuração do ge constatou, por meio de vídeos e fotos publicados nos canais oficiais do clube, que o protocolo da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) foi descumprido durante a comemoração no gramado da Arena e que há pelo menos oito infectados que foram omitidos nos comunicados enviados à imprensa e publicados no site do clube.

As diretrizes da FGF impõem limites no acesso de 50 profissionais credenciados ao campo de jogo (antes, durante e após a partida), entre atletas, comissão técnica, seguranças e uma cota excedente. Fotos do título, porém, mostram ao menos 69 gremistas em campo — em alguns registros, nenhum dos três seguranças com essa permissão aparece, o que leva a crer que o limite foi extrapolado em 22 profissionais.

Grêmio comemora tetra gaúcho — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Grêmio comemora tetra gaúcho — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

— De fato, houve ingresso de uma série de pessoas adicionais ao grupo de 50 profissionais do elenco que estavam testados — admitiu o CEO do Grêmio, Carlos Amodeo.

A festa do título gaúcho, que começou no gramado, continuou no vestiário. Imagens mostram ainda mais pessoas em contato com a delegação gremista. Nem todas foram identificadas, mas há relatos de que eram, principalmente, convidados dos jogadores. Há também vídeos circulando em redes sociais e em grupos de WhatsApp que registram a presença de Romildo Bolzan Neto, filho do presidente gremista e diretor do grupo de transição, na comemoração. Amodeu admitiu que “pessoas do convívio normal” tiveram acesso ao ambiente.

— Não sei, não fiscalizei todas as pessoas que entraram (se fizeram o teste). Não tenho condições de te afirmar isso — afirmou o CEO, quando questionado se todos que tiveram acesso ao vestiário passaram pelo protocolo exigido pela FGF.

Desde a comemoração, 10 casos de Covid-19 foram oficializados pelo Grêmio. A reportagem, porém, teve a confirmação de que houve pelo menos mais oito pessoas infectadas — uma delas, inclusive, está hospitalizada. Boa parte dos casos não oficializados pelo clube são de profissionais do suporte do CT Luiz Carvalho, como motorista, nutricionista, secretária e outros. O Grêmio, inclusive, foi contatado na segunda-feira (31) pela Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde de Porto Alegre por não ter notificado o surto à equipe. Segundo o órgão, foi solicitada uma lista de todos os testes positivos dos 14 dias seguintes ao segundo caso, entre outras informações. A resposta ainda não foi repassada.

Consultada sobre os casos que não foram oficializados, a direção gremista deu diferentes versões. O vice de futebol, Marcos Herrmann, destacou que os profissionais do Grêmio — não apenas jogadores e comissão técnica, mas também funcionários de apoio — são testados regularmente e reconheceu que houve aumento de casos depois da festa do título

— Não sei se são 15, 25 ou 10 casos. Fazemos PCR duas vezes por semana. Isso (o surto de Covid) talvez, por mais contraditório que possa parecer, é fruto do título. Você é campeão e se expõe mais. Curiosamente, pois sei que tiveram outros campeões no Brasil que não enfrentaram esse problema.

Fotos da comemoração mostram pelo menos 69 gremistas no gramado, quando o limite eram 50. A maioria deles, sem máscara, inclusive o CEO, Carlos Amodeo, e o vice de futebol, Marcos Herrmann. Questionado sobre o assunto, Amodeo respondeu que entrou com o equipamento de proteção, mas que tirou depois. "Boa pergunta, deve ter sido um descuido meu". — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Fotos da comemoração mostram pelo menos 69 gremistas no gramado, quando o limite eram 50. A maioria deles, sem máscara, inclusive o CEO, Carlos Amodeo, e o vice de futebol, Marcos Herrmann. Questionado sobre o assunto, Amodeo respondeu que entrou com o equipamento de proteção, mas que tirou depois. “Boa pergunta, deve ter sido um descuido meu”. — Foto: Lucas Uebel/Grêmio

A Federação Gaúcha de Futebol afirmou que o controle de quem entra no gramado é de responsabilidade do Grêmio. Amodeo, por sua vez, não soube informar quem permitiu o acesso dos profissionais que excederam o limite. Ele disse que a responsabilidade é da administradora do estádio, a empresa Arena Porto-Alegrense.

Por último, o presidente gremista, Romildo Bolzan Junior, declarou que o número é de conhecimento da diretoria, mas que não seria repassado à reportagem.

— Não há esta estatística. Temos muito menos casos. Queres a informação? Te foi passada. Fora disto, a gente sabe e também sabe a natureza do que procuras — finalizou o dirigente.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da administradora do estádio, a Arena Porto-Alegrense, para confirmar a informação fornecida por Carlos Amodeo, que atribuiu à empresa a responsabilidade do controle de quem acessa o gramado. Até o fechamento da matéria, não houve resposta.



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